domingo, 14 de junho de 2026

Pokémon: TLD - Capítulo 18: nem todo encontro acontece por acaso

3 dias atrás


21:45 da noite

Em algum lugar nas proximidades da Floresta de Viridian


Um jipe, acompanhado por alguns motoqueiros como segurança extra, percorria as estradas escuras próximas ao matagal.

 

Acreditavam estar sendo discretos, afinal, poucas pessoas conheciam aquelas rotas escondidas.

 

No entanto...

 

Mal sabiam eles que estavam sendo seguidos havia um bom tempo.

 

Dois vultos se moviam sorrateiramente entre as árvores, evitando serem notados por sequer um segundo. Observavam cada movimento dos criminosos enquanto investigavam cuidadosamente o trajeto do veículo.

 

Depois de algum tempo, o jipe finalmente interrompe o percurso diante de um grande portão metálico, que se abre automaticamente ao detectar a aproximação do automóvel.

 

Logo adiante, revelava-se uma enorme estrutura que lembrava um abrigo industrial ou uma fábrica abandonada.

 

Tinha que ser ali.

 

Os perseguidores então revelam parcialmente suas silhuetas em meio ao breu da floresta - um homem encapuzado... e um Pokémon.

 

Logo em seguida, alguém desce do jipe e sinaliza onde o veículo deveria ser estacionado. Pouco depois, os motoqueiros também abandonam suas motos e se aproximam do portão metálico.

 

Pela movimentação do grupo, era evidente que estavam envolvidos em algo importante. Ao menos, seria exatamente isso o que um leigo deduziria, mas o homem e o Pokémon sabiam exatamente o que aquela gente estava fazendo.

 

Os uniformes que usavam, inclusive, tornavam impossível qualquer dúvida sobre suas identidades – se tratavam de membros da Equipe Rocket.

 

Eles discutiam alguma coisa entre si, embora o homem escondido não conseguisse compreender o conteúdo da conversa devido à distância.

 

Ainda assim, ao analisar o introspectivo deles, não era boa coisa.

 

— Quantos são? — pergunta outro homem ao surgir do interior do esconderijo. Diferente dos demais, ele usava um jaleco de cientista.

 

— Capturamos mais cinco, todos ao sul de Cerulean! — responde um dos Rockets.

 

— Entendo… O chefe vai ficar satisfeito. — sorri o cientista da Equipe Rocket enquanto se vira. — Deixem o jipe aqui dentro. Mesmo sendo improvável, não queremos correr o risco de alguém encontrar esse esconderijo.

 

Ele começa a caminhar de volta para dentro da instalação, mas para ao perceber que não recebeu resposta alguma.

 

Ao se virar novamente, seus olhos se arregalam.

 

Todos os Rockets estavam caídos no chão, desacordados – até mesmo o motorista que permanecera no veículo.

 

— Mas o qu…?!

 

O homem sequer tem tempo de expressar o próprio choque antes de sentir um golpe violento atingir sua nuca.

 

Seu corpo desaba inconsciente no mesmo instante, para assim, os responsáveis pelo ataque finalmente se revelarem.

 

O homem que antes apenas observava nas sombras, ao lado de seu Pokémon, decidira agir. E aquele havia sido o momento perfeito.

 

Aproveitando a oportunidade, eles libertam os Pokémon que os criminosos haviam trazido no jipe. Sem hesitar, as criaturas disparam em direção à mata fechada.

 

— Vamos, parceiro! Tem que estar aqui em algum lugar!

 

— Rar!

 

Precisavam agir rápido. Por isso, já não se importavam em permanecer discretos - dentro daquela instalação, teriam de fazer barulho.

 

Os dois avançam corredor adentro, passando por diversas salas que escondiam os horrores cometidos por essa organização.

 

Mais à frente, dois guardas Rockets finalmente os avistam.

 

Entretanto, antes mesmo que tivessem tempo de chamar reforços, o misterioso Pokémon dispara em uma velocidade absurda, surgindo diante dos homens em um piscar de olhos.

 

Com golpes simultâneos no estômago, os dois guardas são nocauteados instantaneamente, caindo no chão sem qualquer chance de reação.

 

Entretanto, as diversas câmeras de segurança da instalação já os haviam detectado - algo que ambos já esperavam.

 

No instante seguinte, alarmes começam a ecoar por toda a base, enquanto luzes vermelhas passam a dominar o ambiente.

 

— Vamos logo, Lucario! Não vai demorar pra aparecer mais deles! / Rar!

 

Após correrem por mais alguns corredores - derrubando Rockets ocasionais pelo caminho - os dois finalmente chegam a uma sala isolada do restante da instalação, protegida por um cadeado extremamente resistente.

 

Ainda assim, o Pokémon de aparência semelhante a um imponente chacal apenas concentra uma energia azulada na palma da pata.

 

A aura envolve o cadeado por um breve instante.

 

Então... O metal é despedaçado sem o menor esforço.

 

— Perfeito — o homem sorri.

 

Logo depois, os dois abrem a porta e entram no exato local que procuravam: o depósito.

 

O lugar estava abarrotado de caixas contendo suplementos contrabandeados, drogas potentes, ferramentas diversas e vários outros objetos cuja utilidade o homem desconhecia.

 

Mas nada chamava mais atenção do que os inúmeros Pokémon enjaulados.

 

Mankeys, Raticates, Ponytas e muitos outros permaneciam feridos, doentes e abatidos - sinais claros de maus-tratos.

 

Como alguém conseguia fazer aquilo com essas pobres criaturas?

 

Ainda assim, ele precisava focar primeiro no verdadeiro motivo de estar ali. Mas antes, o homem trancou a porta atrás de si – um cuidado extra nunca era demais.

 

Não havia tempo para vasculhar caixa por caixa. O homem apenas encara seu Pokémon e faz um breve sinal com a cabeça, sendo entendido imediatamente. - o alarme continuava ecoando pela instalação. Precisavam se apressar.

 

O chacal fecha os olhos e se concentra profundamente.

 

Mesmo sem enxergar, era capaz de sentir a energia vital ao seu redor.

 

E foi através dessa habilidade que detectou uma aura extremamente fraca... ainda não eclodida.

 

Era aquilo.

 

Sem perder tempo, o Pokémon avança até o fundo do depósito, onde várias caixas vazias estavam empilhadas umas sobre as outras, removendo-as rapidamente do caminho.

 

Então, finalmente encontram o que procuravam: um ovo, mantido cuidadosamente dentro de uma incubadora.

 

— Ótimo, Lucario! / Rar! — o homem suspira aliviado ao pegar com cautela a incubadora em seus braços, portando aquele objeto de imenso valor.

 

No instante seguinte, uma forte batida ecoa na porta trancada - os Rockets haviam chegado. E estavam preparados para arrombar a entrada.

 

Não havia mais tempo. Precisavam pensar rápido. Foi então que uma ideia surge na mente do homem.

 

Sem hesitar, ele entrega o ovo aos cuidados de Lucario e corre até uma das jaulas.

 

O que acontece em seguida é a libertação de todos os Pokémon presos naquele depósito, um por um, antes que a Equipe Rocket invadisse a sala.

 

Assim que o último Pokémon é solto, a porta explode violentamente.

 

Os Rockets avançam pelo recinto imediatamente, deixando claras suas intenções assassinas contra o invasor.

 

No entanto, antes que os Rockets percebessem o que estava acontecendo, o caos se instaura.

 

Os Pokémon, sentindo o gosto da liberdade depois de tanto tempo presos, disparam desesperadamente em direção à saída, atropelando os Rockets sem qualquer piedade no processo.

 

— ARGH!!! Que droga! Chamem reforços! — grita um dos Rockets enquanto tentava desviar da multidão descontrolada de Pokémon.

 

— O comandante Petrel já foi acionado! Ele deve chegar em alguns minutos! — responde outro membro da Equipe Rocket.

 

O responsável por toda aquela confusão apenas sorri antes de se virar para uma parede completamente fechada, sem qualquer janela ou saída aparente.

 

— Lucario, use Close Combat nessa parede.

 

Sem hesitar, o Pokémon devolve o ovo ao treinador e concentra uma enorme quantidade de força nos punhos.

 

E então, desfere uma sequência brutal de golpes poderosos e precisos.

 

Com isso, a parede é completamente despedaçada, abrindo um enorme buraco por onde poderiam escapar.

 

Os Rockets tentam alcançá-los, mas o caos causado pelos Pokémon libertos atrasava completamente seus movimentos – mesmo usando os Pokémon dados pela organização, ainda eram muitos para lidar.

 

— Skarmory, saia e leve a gente pra longe! — o homem lança uma Great Ball para o alto.

 

— SKAAAAAR!!! — dela emerge um grande pássaro metálico, que imediatamente alcança seu treinador.

 

Sem perder tempo, o homem e Lucario saltam sobre suas costas e levantam voo.

 

Não importava para onde iriam. Só precisavam se afastar o máximo possível daquela base - porque era óbvio que seriam perseguidos.

 

Nesse instante, Lucario sente algo e olha para trás.

 

Um enorme kanji flamejante vinha cortando os céus em alta velocidade na direção deles.

 

— RAR!!! — alerta o Pokémon.

 

— Cuidado, Skarmory! / Skar!!!

 

Graças aos sentidos aguçados de Lucario, conseguem perceber o ataque a tempo e desviam por pouco, desaparecendo noite adentro enquanto se afastavam daquela instalação rumo a um destino desconhecido.

 

Da parede destruída pelo chacal, o responsável por aquele ataque finalmente surge caminhando lentamente. Ao seu lado, seu Pokémon ainda possuía resquícios de fumaça escapando da boca, consequência do recente ataque flamejante.

 

Atrás deles, vários Pokémon jaziam desacordados, todos derrotados por aquele mesmo homem. Alguns conseguiram escapar durante o caos, mas isso pouco importava - poderiam recapturá-los depois. Mas o que o invasor havia levado... Aquilo não tinha preço.

 

— Cara... o comandante Petrel é mesmo incrível. Ele derrotou todos esses Pokémon sozinho. — comenta um Rocket para seu companheiro ao lado, observando as costas de seu superior, que encarava o horizonte na direção em que o invasor desaparecera.

 

— Tsk... — o tal Petrel estala a língua, claramente frustrado.

 

— Weeezin... — murmura seu Pokémon, flutuando ao lado dele, pronto para receber novas ordens.

 

— Cassidy. Butch! — chama Petrel, em um tom que não aceitava demora.

 

— Senhor! — entre os reforços, um homem e uma mulher dão um passo à frente enquanto batiam continência.

 

— Recuperem aquele ovo. E... se puderem... matem aquele sujeito.

 

A ordem é dita de forma direta e fria, sem espaço para questionamentos.

 

— Sim, senhor! — respondem imediatamente antes de se afastarem para reunir os demais Rockets e iniciar a perseguição.

 

Petrel volta a observar o céu estrelado por alguns segundos antes de suspirar pesadamente.

 

“Argh... Com certeza o chefe vai descontar do meu salário...”

 

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Dias atuais – 17:50 da tarde...

 

Naquela tarde costeira, o crepúsculo pairava no horizonte, tingindo o imenso céu com tons alaranjados que realçavam ainda mais a paisagem hipnotizante junto à vastidão do mar azul. Ao fundo, porém, nuvens escuras começavam a se formar, anunciando a possível chegada de uma tempestade.

 

Ash e companhia caminhavam tranquilamente pela Rota 25 enquanto admiravam a vista para o oceano, aproveitando a brisa suave daquela tarde. Já havia se passado um dia desde os acontecimentos na famosa Pokémon Tech, e agora o grupo se aproximava cada vez mais da próxima cidade.

 

— O mar é tão incrível… — comenta Misty, completamente deslumbrada com a paisagem.

 

— É a primeira vez que eu vejo o mar tão de perto. — diz Serena, observando a vastidão azul diante de seus próprios olhos.

 

De fato, ela vivia muito longe da costa mais próxima de sua cidade natal e raramente saía de casa. Ver pessoalmente aquela imensidão marítima era uma experiência fascinante para a caramelada.

 

— De fato. É incrível pensar que essa rota acabaria nos trazendo para a costa. — comenta Brock, admirando a paisagem ao redor.

 

— Verdade. / Pikaaa… — Ash concorda junto de seu fiel parceiro sobre o ombro. Então, algo chama sua atenção. — Mas espera… o que é aquilo?

 

O moreno aponta para uma grande pedra próxima ao mar.

 

De trás dela, um Pokémon surge lentamente. Possuía uma carapaça avermelhada, longas pernas finas de tom bege claro e grandes pinças no lugar das mãos. Seus olhos negros e arregalados observavam o grupo com curiosidade enquanto ele caminhava de lado sobre a pedra.

 

— Espera… aquilo é… — murmura Ash, sentindo que reconhecia aquele Pokémon. Rapidamente, aponta a Pokédex em sua direção.

 

KRABBY / Nº 098 / Água: Pode ser encontrado próximo ao mar. Suas grandes pinças podem crescer novamente caso sejam arrancadas. — analisa Dexter.

 

— UAU!!! UM POKÉMON TIPO ÁGUA!!! — exclama Misty, completamente animada. — É hora de adicionar mais um à minha coleção!

 

— Nem vem com essa, Misty! — rebate Ash imediatamente. — Eu vi ele primeiro, então tenho o direito de capturá-lo!

 

— Pode ir tirando o Ponyta da chuva, Ash! — retruca a ruiva. — A especialista em tipos Água aqui sou eu!

 

— Misty, dessa vez o Ash está certo. — argumenta Brock, fazendo a garota inflar as bochechas em um bico emburrado. — Além disso… esse seria seu primeiro Pokémon de Água, não seria? — pergunta ao olhar para o treinador de Pallet.

 

— Exatamente, Brock. — confirma Ash. — Ei, amigão. Se importa de deixar outro dos nossos parceiros brilhar dessa vez? — pede o jovem Treinador ao seu companheiro.

 

— Chaaa! — responde Pikachu tranquilamente. Ele não se incomodava nem um pouco; afinal, seus companheiros também mereciam sua chance.

 

— Vai lá, Ash! — incentiva Serena.

 

— Beleza! — Ash corre em direção ao alvo e toma posição. — Vamos nessa, Butterfree!

 

O garoto lança a Poké Ball, liberando o tipo Inseto.

 

— Freee!

 

O Pokémon lepidóptero surge em meio ao brilho azulado, aparentando estar mais do que pronto para a batalha. Queria compensar seu Treinador pela derrota anterior.

 

— Butterfree? Pensei que você fosse usar o Pikachu. — comenta Misty, já que aquela parecia a escolha mais óbvia para a situação.

 

— É verdade. Mas eu queria usar o Butterfree. Acho que ele pode ganhar ainda mais experiência em uma situação dessas. — explica Ash, sorridente e confiante em sua decisão. — Além disso, tenho certeza de que o Butterfree quer treinar contra Pokémon aquáticos. Quem sabe um dia ele não consiga uma revanche contra você, Misty?

 

O garoto encara a ruiva, que se surpreende levemente com a declaração. Ainda assim, apenas suspira - embora não pudesse deixar de simpatizar com aquele desafio.

 

— Entendo. Ganhar experiência enfrentando um tipo de Pokémon que já te derrotou antes realmente parece uma boa ideia. — comenta Brock com um sorriso, compreendendo perfeitamente o raciocínio do garoto de Pallet.

 

— Agora vamos lá, Butterfree! Comece com Tackle!

 

Assim que Ash dá o comando, a borboleta avança velozmente contra o caranguejo, acertando-o com uma investida que o arremessa para longe da pedra.

 

Ao perceber que estava sendo atacado, Krabby imediatamente entra em alerta, principalmente por seu agressor ser uma criatura alada bastante incomum naquela região costeira.

 

Decidido a revidar, ele ergue sua pinça direita e dispara uma rajada de bolhas na direção de Butterfree.

 

— Ele está usando Bubble Beam, Ash! — identifica Brock.

 

— Cuidado, Butterfree! Desvie! — alerta o palletiano.

 

— Freee!

 

O Pokémon lepidóptero esquiva-se com relativa facilidade, impressionando o pequeno crustáceo.

 

— “Comparado à batalha contra a Misty, esse Krabby está bem abaixo… Claro, isso não significa que eu deva subestimá-lo.” — analisa Ash rapidamente. — Agora use Gust!

 

Krabby tenta responder mais uma vez com seu ataque de bolhas, mas a poderosa rajada de vento criada pelo bater de asas de Butterfree estoura o ataque sem dificuldade, anulando-o completamente e lançando o Pokémon aquático para trás, o fazendo rolar pelo solo arenoso.

 

— Agora aproveite a chance e ataque novamente com Tackle! — ordena Ash.

 

Butterfree dispara em alta velocidade com mais uma investida aérea poderosa.

 

Entretanto, Krabby se recusa a desistir.

 

Erguendo-se com esforço, o pequeno crustáceo prepara sua pinça mais uma vez. Porém, dessa vez, ele apenas a mantém aberta enquanto exibia uma expressão muito mais determinada – nisso, sua pinça manifesta um brilho esbranquiçado.

 

— Toma cuidado, Ash! Ele vai tentar usar Vice Grip! — alerta Misty.

 

— Eu sei! Mas não vamos recuar! Pode ter certeza de que eu vou capturá-lo. Certo, Butterfree? — responde Ash, demonstrando total confiança em seu Pokémon.

 

Disposta a corresponder às expectativas de seu Treinador, Butterfree avança corajosamente contra o adversário, que também preparava seu ataque.

 

Quando a distância entre os dois diminui, Krabby tenta acertar a borboleta com um poderoso aperto de pinça, mas Butterfree desvia por centímetros e, aproveitando a abertura, contra-ataca imediatamente com um Tackle certeiro, lançando o Pokémon aquático para longe.

 

Ao perceber que o adversário já estava bastante debilitado, Ash não perde tempo e rapidamente saca uma Poké Ball.

 

— Poké Ball, vai!

 

O jovem a arremessa com precisão, acertando a carapaça de Krabby. Um brilho avermelhado envolve o Pokémon, puxando-o para dentro da esfera.

 

A Poké Ball sequer balança mais de uma vez antes de emitir o som que confirmava a captura bem-sucedida.

 

— Legal! Eu capturei um Krabby! / Pipikachu!

 

Ash comemora com sua clássica pose, algo que Brock e Misty achavam um tanto exagerada. Serena, por outro lado, apenas achava graça daquilo tudo.

 

— Maravilhoso, Ash! Agora você tem um Pokémon do tipo Água no time! — parabeniza Serena, feliz por ver seu amado conquistar um novo parceiro.

 

— Graças a essa captura, seu leque de possibilidades vai aumentar bastante. — comenta Brock.

 

— Se quiser, posso até te ensinar algumas estratégias que você pode usar com tipos Água no futuro. — Misty sorri ao se aproximar. — Vou te mostrar como eles podem ser extremamente fortes quando são bem trabalhados.

 

— Valeu, Misty! Isso vai ser muito útil. — responde Ash.

 

Logo em seguida, o garoto decide verificar os movimentos do crustáceo pela Pokédex: Vice Grip, Harden e Bubble Beam.

 

Não era nada extraordinário, mas isso pouco importava. Ele estava satisfeito com sua captura.

 

“Krabby, seja bem-vindo à família Ketchum. Vamos trabalhar muito bem juntos. Eu prometo.” — pensa Ash enquanto observava a Poké Ball do tipo Água em sua mão.

 

— A propósito, Ash… fiquei curiosa. — comenta Serena. — Por que você não usou o Stun Spore do Butterfree no Krabby? Não teria sido mais fácil capturá-lo assim?

 

— Bem… eu lembrei de uma coisa que aprendi na Pokémon Academy. Pokémon que ficam paralisados ou envenenados não se recuperam automaticamente depois da captura. E a gente não tem Anti-Paralisante nem Cherri Berry conosco. — explica o moreno. — Então, se eu precisasse usar ele mais tarde, isso poderia acabar causando vários problemas durante uma batalha.

 

— Foi uma ótima decisão, Ash. Realmente muito bem pensado. — elogia Brock, satisfeito ao ver o amigo pensando a longo prazo. — Esse é exatamente o tipo de detalhe que muitos Treinadores ignoram no começo da jornada.

 

— Quem diria que o Ash Ketchum sabe pensar… — provoca Misty.

 

— Não enche, Misty! — Ash lança um olhar irritado para a ruiva, arrancando risadas da mesma.

 

“Caramba… eu até tinha esquecido desse detalhe. Algo tão simples assim…” — Serena refletia, admirada com a sagacidade do moreno, um leve sorriso escapando de seus lábios sem que ela notasse. — “Muito bem, Ash…”

 

Talvez as pessoas da Pokémon Academy nunca tivessem percebido esse lado do garoto. Porque, se tivessem… certamente teriam valorizado muito mais o potencial dele.

 

Misty não conseguiu evitar uma risadinha baixa, já que a kalosiana parecia completamente alheia ao fato de estar sendo absurdamente óbvia sobre seus sentimentos por Ash. O mais curioso era que sequer cogitava a possibilidade de que ela e Brock já tinham percebido tudo havia bastante tempo.

 

Bem... todos, exceto o próprio Ash, é claro.

 

— Bem, acho melhor começarmos a procurar um lugar adequado para passar a noite. Pode acabar chovendo mais tarde. — sugere Brock, observando as mudanças no céu.

 

— Ah, que nada, Brock. Vamos aproveitar mais um pouco a brisa. Tem algumas nuvens, é verdade, mas não acho que seja motivo pra...

 

Antes de Ash completar sua frase despreocupada, um estrondo gigantesco ecoa pela costa, interrompendo Ash abruptamente e fazendo o quarteto se assustar.

 

A atmosfera muda instantaneamente.

 

— O que foi... esse barulho? — pergunta Serena, claramente assustada.

 

— Pareceu uma explosão... ou talvez uma colisão de ataques. E veio do outro lado da costa. — Brock estreita o olhar, analisando a direção do som.

 

— Vamos verificar! / Pikaa! — Ash e Pikachu disparam imediatamente na direção do som, ambos com expressões sérias.

 

— Ash, espera! — Serena grita, preocupada, correndo atrás dele.

 

Misty e Brock também não perdem tempo e seguem a dupla.

 

Assim, o grupo avança rapidamente pela beira da praia, decidido a descobrir o que havia causado aquele estranho estrondo.

 

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Do outro lado da costa, nuvens de areia e poeira eram erguidas violentamente pelo impacto dos ataques.

 

De repente, atravessando a fumaça, um Pokémon é lançado para trás com brutalidade. Ainda assim, consegue girar o corpo no ar e fincar as patas na areia macia, aterrissando em segurança.

 

— Você está bem? — pergunta uma silhueta atrás dele, segurando um ovo Pokémon nos braços.

 

— Raar... raar...

 

O Pokémon arfava de cansaço, mas logo voltava a se erguer. Apesar do desgaste evidente, ainda demonstrava disposição para continuar lutando.

 

Ele vinha batalhando sem descanso até ali - e contra vários adversários ao mesmo tempo. Mesmo sendo poderoso, nem ele sabia por quanto tempo ainda conseguiria aguentar.

 

Conforme a poeira baixava, quatro figuras surgem do outro lado.

 

Todos vestiam uniformes escuros, boinas negras, luvas e botas acinzentadas. No peito, o grande “R” denunciava imediatamente quem eram.

 

Equipe Rocket.

 

Ao redor deles, vários de seus Pokémon se encontravam desacordados na areia.

 

— Insolentes! Entreguem o que roubaram! — rosna um dos Rockets, tentando soar intimidador apesar do cansaço evidente.

 

— Cerquem eles! — ordena outra integrante.

 

No mesmo instante, quatro Pokémon avançam ao redor da dupla fugitiva.

 

Um grande morcego azulado sem olhos, um pequeno crustáceo coberto por cogumelos, um primata de pelos claros e um grande roedor de presas enormes.

 

Eram respectivamente Golbat, Paras, Mankey e Raticate.

 

— Raaaar...

 

O Pokémon chacal rosna em irritação, assumindo posição de combate mais uma vez. Aqueles Rockets estavam começando a irritá-lo.

 

O homem observava seu Pokémon com preocupação. Lucario estava ferido, exausto e praticamente sem fôlego para continuar correndo. Desde o resgate do ovo naquela base, tudo o que fizeram foi fugir e lutar, sem um único minuto de descanso.

 

“Isso é ruim... Lucario já está no limite. Se isso continuar...” — a figura apertava o ovo junto ao peito, enquanto o suor escorria por sua testa.

 

Mesmo desgastado, Lucario ainda revidava. Com movimentos rápidos e precisos, afastava os Pokémon que avançavam em sua direção, golpeando-os sempre que se aproximavam. Ainda assim, o peso do cansaço já era evidente em cada respiração arfante.

 

— Senhor, o que fazemos agora? — pergunta uma das capangas, insegura.

 

— Tsk... droga! Se não podemos simplesmente tomar aquele ovo, então temos que abater o Pokémon dele! — rosna o Rocket que liderava o grupo. — Raticate, use Hyper Fang!

 

As ordens recebidas eram claras: recuperar a mercadoria sem danificá-la.

 

Na teoria, parecia simples. Na prática, aquela perseguição havia se tornado muito mais problemática do que esperavam.

 

Mas, independentemente das dificuldades, eles precisavam concluir a missão a qualquer custo.

 

— Pikachu, Thunder Shock! / Fennekin, Flamethrower!

 

— Pikaaachuuu! / Fennekiiiin! — De repente, uma descarga elétrica e uma torrente de chamas cortam o campo de batalha, atingindo o grande roedor em cheio. O impacto o faz cair contra a areia em agonia, atraindo imediatamente a atenção.

 

— Q-quem são essas crianças?! — exclama o Rocket que parecia liderar o grupo.

 

“Eles são... da Equipe Rocket...” — pensa Ash ao notar o símbolo estampado nos uniformes. Sua expressão, assim como a de Pikachu, endurece imediatamente. Algo parecia terrivelmente errado.

 

— Se vocês estão atacando alguém em maior número... — diz Brock, assumindo uma postura firme ao lado de Geodude.

 

— ... então nós podemos muito bem entrar nesse jogo também. — completa Misty, com Starmie já posicionada ao seu lado, pronta para a batalha.

 

— Geodude, ataque Golbat e Mankey com Rock Throw! / Você também, Starmie! Mire em Paras e Raticate com Rapid Spin! — comandam Brock e Misty respectivamente.

 

— Geooo! — o Pokémon Rocha se concentra e rapidamente dispara uma sequência de pedras afiadas, atingindo em cheio o morcego e o macaco, que não conseguem reagir a tempo.

 

Enquanto Raticate - que acabara de se recuperar do ataque combinado - e Paras desviavam a atenção para os companheiros atingidos, um ataque aéreo veloz os alcança por um ponto cego. Starmie surge rapidamente pelas costas dos dois Pokémon, atingindo-os antes de girar no ar como um bumerangue e retornar à sua posição inicial.

 

— Aqueles pirralhos estão atrapalhando! Se isso continuar, não vamos recuperar o ovo. O que fazemos, senhor?

 

— Grrr... não temos escolha! Estamos chamando atenção demais! — rosna o líder. — Recuar! Hora de recuar!

 

Ao ouvir a ordem, os demais Rockets recolhem seus Pokémon feridos e disparam mata adentro sem perder mais tempo.

 

O líder do grupo ainda lança um último olhar carregado de descontentamento para os jovens, gravando seus rostos na memória antes de desaparecer entre as árvores.

 

— Ei, não fujam! — Misty se preparava para persegui-los, porém...

 

— Misty, não vale a pena perder tempo com isso. Além do mais, nada garante que não seja uma armadilha. — Brock intervém, fazendo a ruiva suspirar em frustração. Ela realmente queria ensinar uma lição àqueles criminosos.

 

Enquanto isso, o homem ajoelhado e seu Lucario observavam o grupo com genuína curiosidade.

 

Aqueles jovens realmente os salvaram?

 

Era uma dúvida pertinente, mas não havia espaço para divagações naquele momento. O mais importante era que, apesar de tudo, aquilo que carregava nos braços permanecia seguro.

 

— Ei! Vocês estão bem? / Pika?! — a dupla volta sua atenção para o garoto de boné vermelho que corria até eles acompanhado de seu Pikachu.

 

— Estamos, sim. Agradecemos pela ajuda inesperada. / Raaar! — responde o homem junto de seu chacal.

 

Serena alcança Ash ao lado de Fennekin, enquanto Brock e Misty chegam logo atrás após recolherem seus Pokémon.

 

Nesse momento, os quatro finalmente puderam observar melhor o espécime incomum diante deles.

 

— Ei... esse Pokémon... — murmura Serena, apontando sua Pokédex para a criatura azulada.

 

— Sem dados disponíveis. — ecoa a voz robótica de Elexa.

 

— Nenhum dado? Então esse Pokémon... — Ash arregala os olhos, surpreso. Mais uma vez, eles se deparavam com uma espécie que o aparelho era incapaz de identificar.

 

— É compreensível que seu dispositivo não consiga analisar Lucario. Afinal, ele não é um Pokémon nativo desta região. — explica o homem misterioso.

 

— Lucario? Hum... esse nome não me é estranho. — pondera Brock, observando atentamente o chacal.

 

— Brock, você conhece esse Pokémon? — pergunta Ash, curioso.

 

Diante deles estava um Pokémon bípede de pelagem azul e preta, semelhante a um chacal. Suas orelhas pontudas, os olhos carmesim e a postura firme lhe conferiam uma presença imponente, difícil de ignorar.

 

— Sendo sincero, já ouvi falar. Mas não me lembro do seu tipo nem da região de onde vem. — respondeu Brock, incapaz de esclarecer a dúvida.

 

Aquilo surpreendeu Ash. Brock não era apenas um ex-Líder de Ginásio experiente, mas também alguém extremamente conhecedor quando o assunto era Pokémon. Em diversos momentos da viagem, o moreno recorria a ele para tirar dúvidas. Ver que até Brock possuía apenas um conhecimento superficial daquela criatura o deixava ainda mais intrigado.

 

— Mas afinal, quem é você? — questionou Misty, sem rodeios - para a Equipe Rocket ter uma aparente rixa com ele, certamente não era alguém qualquer.

 

Ao ouvir a pergunta e concluir que aqueles jovens não representavam uma ameaça, o homem pareceu finalmente se sentir à vontade para remover a grande capa que ocultava sua identidade.

 

O espanto foi imediato.

 

Pela voz, todos imaginavam alguém muito mais velho. Porém, o rapaz por trás do manto era surpreendentemente jovem.

 

Ele possuía cabelos azul-escuros espetados, pele clara e olhos azuis. Vestia um casaco azul com detalhes pretos, uma gola alta escura, um ornamento dourado no peito, calças marrons e sapatos escuros. Para completar o visual, retirou da cintura um grande chapéu azul de aba larga e o acomodou sobre a cabeça, cobrindo parcialmente o rosto.

 

Era um traje completamente diferente de qualquer coisa que já tinham visto. Ficava evidente que aquele homem não era um nativo de Kanto.

 

— Perdoem-me. Onde estão minhas maneiras? — desculpou-se cordialmente, exibindo um discreto sorriso. — Meu nome é Riley. E este ao meu lado é Lucario.

 

— É um prazer conhecê-lo, senhor. Mas essas roupas... Foi mal se eu estiver sendo indelicado, é que nunca vimos vestimentas assim. Pelo menos eu nunca vi. — comentou Ash, coçando a nuca.

 

— É apenas um uniforme que representa minha linhagem e a função que exerço. Nada além disso. / Rar! — respondeu de forma simples, acompanhado por Lucario.

 

— E qual é essa função, se me permite perguntar, senhor? — indagou Serena, curiosa.

 

— Bem, isso é confidencial. — Riley respondeu sem perder a cordialidade. — Mas basta dizer que eu e Lucario somos capazes de sentir e utilizar a “Aura”. Foi graças a isso que conseguimos escapar da Equipe Rocket por tanto tempo.

 

A explicação foi breve, mas suficiente para despertar ainda mais curiosidade.

 

— Estou contando isso porque já é de conhecimento geral que todos os seres vivos possuem Aura. Portanto, não há problema em mencionar minha especialidade. Quanto ao que sou e ao que faço, vocês não irão saber.

 

"Nossa, que simpático..." — ironizou Misty em pensamento, revirando os olhos.

 

Ainda assim, não podia negar que estava surpresa, assim como os demais.

 

Aura?

 

Se aquilo era realmente um conhecimento tão comum, por que nenhum deles já tinha ouvido falar sobre o assunto?

 

A revelação apenas gerava mais perguntas na mente dos jovens treinadores.

 

Mesmo assim, Ash teve a sensação de que aquilo era algo importante. E se Riley não desejava entrar em detalhes, não via motivo para insistir.

 

Apesar de todo o mistério, o homem não parecia ter qualquer intenção de lhes fazer mal.

 

— Mas então, senhor Riley, gostaríamos de saber por que a Equipe Rocket estava atacando vocês. — perguntou Serena, sem esconder a preocupação.

 

— Equipe Rocket, hein? Então é assim que esse grupo se denomina. — refletiu Riley, erguendo uma sobrancelha ao perceber que aqueles jovens conheciam a organização.

 

— Sim. Eles são um grupo de criminosos que roubam Pokémon e causam confusão por onde passam. — disse Ash, cerrando os dentes e fechando o punho, com algumas memórias nada agradáveis corroendo sua mente neste momento. — Sabemos disso porque já cruzamos o caminho deles algumas vezes durante nossa jornada.

 

— Entendo... Vejo que conhecem bem os atos vis desse grupo. — observou o rapaz de cabelos azulados. — Bem, a verdade é que eles estão atrás disto.

 

Ele então revelou a incubadora com o ovo que carregava nos braços.

 

Só naquele momento todos perceberam o objeto que Riley segurava. Em meio à correria para deter os Rockets, ninguém havia reparado.

 

— Um ovo Pokémon... — murmurou Misty, tocando inconscientemente no ovo que carregava em sua mochila.

 

— Exatamente. Fui encarregado da missão de recuperar este ovo, que havia sido roubado há algumas semanas. — revelou Riley. — Por causa disso, tivemos que invadir uma das bases desses criminosos para recuperá-lo. Porém, inevitavelmente, acabamos sendo descobertos e, desde então, estamos sendo perseguidos.

 

— Entendi. Mas que Pokémon poderia estar dentro desse ovo para fazer a Equipe Rocket se empenhar tanto em recuperá-lo? — perguntou Brock, percebendo a gravidade da situação.

 

— Infelizmente, não posso dar mais detalhes do que isso. — respondeu Riley, assumindo um semblante mais sério. — Peço desculpas por ser tão vago, mas nada me garante que esta conversa seja segura nas circunstâncias atuais.

 

— T-tá tudo bem. — tranquilizou Ash. — Acredito que, seja lá o que você faça, deve ter seus motivos. Aliás, nem chegamos a nos apresentar. Eu sou Ash. E este é o Pikachu. / Pikapika!

 

— Eu sou Serena. E esta é a Fennekin. / Fenfen! — apresentou-se a caramelada, enquanto sua parceira repetia o gesto.

 

— Sou Misty Waterflower.

 

— E eu sou Brock. — os dois se apresentaram em seguida.

 

— É um prazer conhecê-los. / Raaaar! — Riley e Lucario responderam educadamente.

 

— Mas então, já que a Equipe Rocket está atrás de vocês, precisamos encontrar um esconderijo rápido, antes que... — no exato momento em que Brock terminava a frase, um som familiar ecoou ao longe.

 

Um trovão ribombou pelos céus. Pouco depois, os primeiros pingos de chuva começaram a cair.

 

— Ah, não! Pelo visto vamos ficar ensopados! — reclamou Misty.

 

— O que vamos fazer? Precisamos encontrar um abrigo logo. Mas onde haveria um por aqui? — perguntou Serena, aflita, já que não tinham avistado nenhuma residência até então.

 

Após observar os arredores com atenção, algo chamou a atenção de Brock.

 

— Olhem lá! — apontou para o norte. — Atrás daquelas árvores. Tem um farol.

 

— Um farol? — Misty arregalou os olhos. Nem tinha percebido.

 

— Bastante perspicaz. — comentou Riley, também notando a construção ao longe. — Podemos tentar verificar se há alguém lá disposto a nos abrigar por um tempo.

 

— Com certeza. Vamos, pessoal! / Pika! — apressou Ash, sem a menor intenção de ficar debaixo daquela chuva.

 

Serena rapidamente pegou Fennekin no colo, e o grupo inteiro correu em direção ao farol da costa enquanto a tempestade começava a ganhar força.

 

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Após a intervenção daqueles jovens, o quarteto de Rockets percorrera rapidamente para a parte mais densa da floresta, no lado oposto da costa, retornando ao local onde o restante da equipe havia montado acampamento.

 

Eles já estavam ali há algum tempo, analisando a área em busca de mapear possíveis rotas do fugitivo.

 

Sem perder tempo, seguiram até a maior tenda do acampamento. Ao entrarem, encontraram os superiores encarregados da missão por Petrel, que pareciam discutir algo entre si.

 

Sentados frente a frente em uma mesa, um homem e uma mulher vestiam os característicos uniformes da Equipe Rocket.

 

Butch possuía cabelos verde-escuros repartidos ao meio e um semblante constantemente impaciente, reflexo de seu temperamento explosivo. Ao seu lado, Cassidy exibia longos cabelos loiros presos em dois rabos de cavalo, olhos arroxeados e uma expressão tão séria quanto intimidadora, mas ao mesmo tempo, calma.

 

— Senhora Cassidy! Senhor Butty! Peço desculpas pela interrupção, mas temos algo para reportar! — exclamou o Rocket de forma apressada e desajeitada.

 

Subitamente, o superior de cabelos verde-escuros se levantou da cadeira em um acesso de fúria, fazendo todo o quarteto estremecer.

 

— EU JÁ DISSE UM MILHÃO DE VEZES! NÃO É BUTTY! É BUTCH! — esbravejou o homem, erguendo-se abruptamente. — Quantas vezes vou ter que repetir isso?!

 

— P-perdão, senhor! Não foi minha intenção ofendê-lo! — o líder do grupo respondeu aos tropeços, tremendo diante da possibilidade de uma punição.

 

— Acalme-se, Butch. — Cassidy interveio com naturalidade, levantando-se da cadeira. — Vamos por partes. Conseguiram encontrá-lo?

 

— S-sim, senhora! Nós o localizamos na costa! — informou o Rocket, constrangido.

 

— Excelente. — Um leve sorriso de expectativa surgiu no rosto da mulher. — Então vocês conseguiram capturá-lo, correto?

 

— B-bem... infelizmente não. O alvo acabou escapando.

 

— O QUÊ?! — O soco de Butch contra a mesa provoca um estrondo que faz todos se sobressaltarem. — Não pode ser! Vocês tinham quatro Pokémon contra apenas um! Como diabos ele conseguiu fugir?!

 

— S-sentimos muito, senhor! Fomos atrapalhados por um grupo de Treinadores. Eles nos atacaram de surpresa e, por causa disso, não tivemos escolha a não ser recuar. Se não fosse por isso, a missão já tava no papo!

 

— T-Treinadores?! Vocês estão de sacanagem?! Vocês são da Equipe Rocket! Não deveriam bater em retirada por causa de um grupo de meros Treinadores! Vocês não têm vergonha na cara?! — esbraveja Butch, claramente indignado. Ele sequer conseguia conceber que seus agentes tivessem sido forçados a recuar por causa de alguns jovens. Aquilo era absurdo.

 

Os subordinados se ajoelham imediatamente em sinal de súplica. Estavam acuados e temiam uma punição severa.

 

Porém, ao colocar uma mão sobre o ombro do parceiro, Cassidy decide intervir.

 

— Espere, Butch. — pede ela, mantendo a calma. — Vocês disseram que era um grupo de Treinadores. Como eles eram? Quantos eram? Quero todos os detalhes.

 

— C-claro! — o líder responde rapidamente. — Eram quatro. Duas garotas e dois garotos. Uma delas era ruiva e usava um Starmie. O outro era um rapaz alto de cabelos escuros e espetados com um Geodude. Havia também uma loira acompanhada de um Pokémon de fogo que eu nunca vi antes... e um garoto de boné com um Pikachu. — Ele faz uma breve pausa. — É só isso que me lembro, senhora. Eu juro!

 

— Hein?! Um Pokémon de fogo desconhecido? Que absurdo! — comenta Butch, sem acreditar.

 

— Espere... Um garoto com um Pikachu. Uma garota acompanhada de um Pokémon de fogo não identificado... Agora faz sentido. — Cassidy estreita os olhos enquanto liga os pontos. — Muito bem. Estão dispensados por enquanto.

 

— C-com sua licença! — gritaram em uníssono antes de deixarem a tenda às pressas.

 

— Ei, Cassidy. Você vai mesmo acreditar neles? — questiona Butch, incrédulo.

 

— Bem, não foi um caso isolado. — responde a loira, refletindo. — Percebi que diziam a verdade quando mencionaram o garoto do Pikachu. A descrição bate com os relatórios daqueles três imbecis e também com os dos nossos agentes veteranos.

 

— Entendo... — Butch cruza os braços, refletindo sobre as palavras da parceira. — Então quer dizer que esse garoto do Pikachu e a garota com o Pokémon de fogo não identificado são os mesmos?

 

— Exatamente.  Afinal, seria coincidência até demais. Mas não acredito que sejam uma ameaça. Afinal, a senhora Rosavia e o senhor Bleuross já lidaram com eles anteriormente sem qualquer dificuldade. — Cassidy dá de ombros. — A diferença é que aqueles três eram incompetentes demais para concluir a operação. Mas... esse não será o nosso caso.

 

— De fato. Eles sequer podem ser comparados a nós. — sorri Butch com desdém ao se lembrar do trio Rocket. — Mas e agora? O alvo escapou. Como pretendemos encontrá-lo?

 

— Hihihi. Não se preocupe. Pense comigo: se aquele garoto e seu Pikachu estão nas redondezas, talvez possamos usá-los a nosso favor. Se encontrarmos o moleque, encontraremos o fugitivo. — explica a loira. — Principalmente com esse temporal que tá se formando, será ainda mais fácil achá-lo.

 

— Acho que já entendi onde você quer chegar. — responde o esverdeado, esboçando um sorriso.

 

— Ah, é mesmo? — provoca Cassidy, lançando-lhe um olhar cúmplice.

 

— Claro que é. — retruca Butch, sem perder a confiança.

 

Talvez, com o sucesso daquela missão, os dois recebessem elogios dos Executivos e até mesmo do próprio chefe, além de uma merecida promoção.

 

E, acima de tudo, provariam de uma vez por todas sua superioridade sobre aquele trio de incompetentes.

 

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Vinte minutos depois, os últimos vestígios de luz desapareciam, cedendo espaço à escuridão. Ao mesmo tempo, uma forte tempestade atingia o litoral, tornando a visibilidade cada vez mais precária. Felizmente, apesar das adversidades, o grupo de Ash - agora acompanhado por Riley e Lucario - conseguiu alcançar seu destino.

 

Construído sobre um penhasco rochoso à beira-mar, o farol era composto por uma pequena casa anexa e uma alta torre branca. Seu poderoso feixe luminoso cortava a tempestade, atravessando a noite chuvosa. Diante deles, erguia-se uma porta dupla de madeira adornada com detalhes dourados.

 

— Arf... arf... uau. Esse farol estava bem mais longe do que parecia. — comenta Ash, exausto da corrida, enquanto cobria Pikachu com sua jaqueta para protegê-lo da chuva.

 

— Arf... pois é. Nunca imaginei que demoraria tanto para chegar até aqui. — concorda Serena, segurando Fennekin nos braços. — Da praia parecia tão perto...

 

— Pelo menos podemos usar este lugar como um esconderijo temporário e despistar a Equipe Rocket. — comenta Riley. — Mas, antes de qualquer coisa, precisamos descobrir se há alguém aqui. Não vejo sequer uma campainha. — acrescenta, esforçando-se para enxergar através da cortina de chuva.

 

— Acho que quem trabalha aqui não espera receber muitas visitas. — observa Brock, enquanto Misty, atrás dele, tentava secar sua incubadora. — De qualquer forma, vamos testar nossa sorte.

 

Dito isso, ele se adianta e aperta o botão vermelho instalado ao lado da entrada.

 

O som ecoou por todo o ambiente como um sino estridente, assustando parte do grupo com o ruído repentino. Parecia que ninguém apertava aquele botão havia muito tempo. Pouco depois, uma voz masculina surgiu pelo porteiro eletrônico.

 

— Quem está aí?

 

— D-desculpe incomodar, senhor. Somos viajantes e acabamos pegos por essa tempestade e não encontramos nenhum abrigo. Poderíamos ficar aí dentro até a chuva passar? — Brock tomou a iniciativa, explicando a situação enquanto todos aguardavam ansiosamente por uma resposta positiva.

 

— Eu... não posso. Sinto muito, mas não posso simplesmente abrigar desconhecidos sem ter sido avisado com antecedência. — recusou o homem do outro lado.

 

De repente, Riley e Lucario avançam para a frente de Brock e, em um gesto desesperado, o Guardião toma a palavra.

 

— Por favor! Imploramos pela sua ajuda! Estou escoltando um ovo Pokémon e sendo perseguido por criminosos. Não temos mais a quem recorrer! — suplica Riley, visivelmente tenso. Na situação em que se encontrava, não podia mais esconder esse detalhe.

 

... — o silêncio que se seguiu pareceu interminável. Então, após quase um minuto de espera, a resposta finalmente veio.

 

— ... Entendo. Vou abrir o portão. Apenas aguardem um instante.

 

Pouco depois, as portas se abriram, permitindo a entrada do grupo. Ash e os demais não esconderam o alívio; finalmente poderiam descansar após toda aquela correria.

 

Ao entrarem, encontraram um chalé aparentemente simples e bem iluminado. No entanto, o que mais chamou a atenção foram os diversos equipamentos tecnológicos instalados ao fundo do recinto. Havia também mesas e cadeiras muito bem conservadas, além de amplas janelas que ofereciam uma vista privilegiada para o mar nos vários andares que seus olhares alcançavam.

 

— Ufa... Ainda bem que ele deixou a gente entrar. — suspira Ash.

 

— Pika? — logo em seguida, algo estranho para o grupo ocorreu – Pikachu sentira uma grande carga de eletricidade percorrer seu corpo, ao ponto de vazar uma leve descarga de suas bochechas.

 

— Pikachu? — Ash observa seu amigo, sem entender nada.

 

No entanto, isso não era tudo...

 

— Está tudo bem, Fennekin? — perguntou Serena, preocupada, ao perceber a respiração ofegante da raposinha. Ela logo a coloca no chão.

 

— Fen... fen... — respondeu a Pokémon de forma mais fraca que o normal enquanto sacudia lentamente os pelos encharcados.

 

— Acredito que a chuva tenha drenado boa parte das forças dela, Serena. Recomendo que a seque o quanto antes. — aconselhou Brock. — Agora com o Pikachu, eu não faço ideia.

 

De fato, permanecer exposto à chuva por longos períodos poderia ser extremamente prejudicial para Pokémon do tipo Fogo. Em casos mais graves, as consequências podiam ser perigosas. Era justamente por isso que a kalosiana estava tão preocupada.

 

— Ora, ora. Me parece que temos uma espécie bem curiosa por aqui. — a voz, antes distorcida pelo interfone, ecoou pelo cômodo, surpreendendo o grupo.

 

Ash e os demais se viraram na direção de onde ela vinha. Do outro lado do salão, uma figura emergia da penumbra.

 

Tratava-se de um homem de cabelos e olhos castanhos. Vestia uma camisa social com gola polo em tom violeta-claro, calças cinzentas e sapatos sociais marrons. Seu olhar, no entanto, estava completamente voltado para Fennekin, exibindo uma curiosidade quase infantil diante daquela espécie tão incomum.

 

— Quem é você? — Misty foi a primeira a falar.

 

— É um prazer conhecê-los. Meu nome é Bill Wright. Sou o responsável por este farol.

 

— Espera... Bill Wright?! — Brock arregalou os olhos.

 

— Você conhece ele, Brock? — questionou Ash.

 

— Bill Wright é um cientista e jornalista bastante renomado em Kanto. — explicou o ex-Líder de Ginásio. — Ele é reconhecido principalmente por aperfeiçoar o funcionamento das Máquinas de Troca Pokémon.

 

— Ora, vejam só. Parece que alguém conhece a minha fama. — Bill sorriu, um tanto sem graça. — Embora isso não seja grande coisa. Eu apenas fiz algumas melhorias aqui e ali. Não é como se tivesse criado esse sistema. Hehe.

 

Enquanto falava, ele levou uma das mãos à nuca, demonstrando um constrangimento genuíno diante dos elogios.

 

— Mas ainda assim, seu trabalho foi de suma importância, senhor Bill. Graças ao senhor, as Máquinas de Troca Pokémon se tornaram muito mais acessíveis aos Treinadores. — elogiou Brock. Ele costumava acompanhar as pesquisas do cientista desde os tempos em que administrava o Ginásio de Pewter e sempre as considerou fascinantes.

 

— Bem, é lisonjeiro saber que alguém conhece o meu trabalho. Mas acredito que possamos deixar isso para depois. — Bill assumiu uma expressão mais séria. — Pelo que me disseram, um de vocês está sendo perseguido por criminosos, correto? Gostaria de ouvir os detalhes.

 

— Sim. Vamos explicar tudo. / Raaar! — Riley tomou a dianteira, carregando o ovo nos braços enquanto Lucario permanecia ao seu lado.

 

Ao observar enfim o imponente Pokémon, Bill não conseguiu esconder o espanto.

 

— Minha nossa... — murmurou, boquiaberto. Rapidamente, porém, recuperou a compostura e limpou a garganta. — Cof, cof... Muito bem. Já vejo que pelo menos parte dessa história é verdadeira. Sentem-se à mesa. Será mais apropriado conversarmos assim.

 

O grupo assentiu e fez o que foi pedido.

 

Ali, apresentaram-se formalmente – além de permitirem que ele analisasse melhor Fennekin e Lucario - e resumiram os acontecimentos para facilitar o entendimento. Bill ouviu atentamente tanto os relatos de Ash sobre a Equipe Rocket e seus encontros anteriores com a organização quanto a explicação de Riley sobre a missão de recuperar o ovo.

 

Riley também comentou brevemente sobre a Aura e suas habilidades, embora não revelasse nada além do que já havia contado aos jovens Treinadores.

 

— Entendo... Essa Equipe Rocket realmente parece bastante perigosa. — Bill ficou pensativo por alguns instantes, mas logo abriu um sorriso tranquilizador. — Ainda assim, duvido que tenham seguido vocês até aqui.

 

— E por que tanta certeza? — questionou Riley, sem esconder o ceticismo.

 

— Apenas confie em mim. — respondeu o pesquisador. — Se essa organização for realmente inteligente e bem estruturada, manterá distância deste farol.

 

Por ora, Riley decidiu aceitar a explicação, embora ainda guardasse suas próprias dúvidas.

 

— Mas o que eu ainda não entendi é o seguinte: por que esse ovo é tão importante? A Equipe Rocket o roubou de alguma reserva natural, mas com qual objetivo? — questionou Bill, dando voz a uma dúvida que ainda o incomodava.

 

— Peço perdão, mas, como já disse anteriormente, não posso revelar mais detalhes. É uma informação extremamente confidencial. — reiterou Riley. — Ainda assim, posso garantir que o Pokémon dentro desse ovo é de suma importância.

 

Bill sustentou o olhar do Guardião por alguns instantes, tentando encontrar qualquer sinal de hesitação ou mentira. No entanto, Riley permaneceu impassível. Sua expressão não demonstrava medo, insegurança ou qualquer indício de falsidade.

 

— Bem... considerando tudo o que ouvi até agora, percebo que você tem seus motivos para manter segredo. — Bill suspirou. — Vou confiar em vocês. Inclusive, permitirei que permaneçam aqui durante esta noite, ou pelo tempo que julgarem necessário, até terem certeza de que a Equipe Rocket desistiu da perseguição.

 

— Sério?! Nossa, muito obrigado! / Agradecemos imensamente, senhor Bill! — Ash demonstrou sua gratidão de imediato, enquanto Serena agradecia de maneira mais formal.

 

Nesse momento, pequenas faíscas voltaram a surgir das bochechas de Pikachu, chamando a atenção de todos.

 

— Isso de novo? O que está acontecendo com você, Pikachu? — perguntou Ash, preocupado que seu parceiro pudesse estar doente.

 

— Provavelmente é por causa da tempestade. — explicou Bill com um sorriso tranquilo. — Seu Pikachu está sendo afetado pela forte atividade eletromagnética gerada pelos trovões. É isso que está provocando esses pequenos picos de eletricidade nele.

 

— Isso é sério? — Ash olhou para seu parceiro.

 

— Pikapi! — respondeu Pikachu com um sorriso tranquilo, indicando que aquilo sempre acontecia durante tempestades como aquela.

 

— Bom... agora que tudo parece estar em ordem, que tal fazermos uma pequena janta? Acho que todos devem estar famintos. — propôs Brock.

 

A simples menção de comida animou o grupo imediatamente. Todos, exceto Riley, que continuava mais reservado.

 

— Nossa, nem me fale! Eu tô tããão faminta! — reclamou Misty, ansiosa. Afinal, eles haviam apenas almoçado naquela manhã e não tinham comido mais nada desde então.

 

— Senhor Bill, eu poderia usar sua cozinha para preparar algo? Como forma de agradecimento, farei uma refeição caprichada com os ingredientes que possuo.

 

— Claro! Sem problema algum. — confirmou Bill. — Para ser sincero, vai ser bom não precisar cozinhar hoje e apenas relaxar um pouco. Obrigado.

 

Enquanto isso, mais ao fundo, Riley havia se afastado discretamente para observar o céu chuvoso através de uma das janelas, sua expressão reflexiva.

 

— Espero que Skarmory esteja bem... — murmurou para si mesmo, sem ninguém por perto para ouvi-lo.

 

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Ao mesmo tempo, a certa distância do farol, Cassidy e Butch avançavam pela mata sob a tempestade, acompanhados por diversos agentes da Equipe Rocket.

 

A chuva castigava a floresta sem piedade, mas nenhum deles parecia se importar. Focavam apenas no objetivo.

 

Cassidy carregava um dispositivo cilíndrico dourado, equipado com uma antena e um pequeno medidor central. Na extremidade, uma luz vermelha piscava fracamente, tornando-se cada vez mais intensa a cada passo que davam — um sinal claro de que seguiam na direção certa.

 

— O sinal eletromagnético está vindo do leste. — apontou a mulher, observando o aparelho. — A tempestade está amplificando a leitura, então não deve demorar para encontrarmos o alvo.

 

Um sorriso confiante surgiu em seus lábios - seus inimigos jamais saberiam o que os atingiu.

 

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Uma hora depois, a chuva caía com ainda mais intensidade, enquanto uma densa neblina se espalhava ao redor do farol. Do lado de fora, o vento uivava sem parar, transformando a tempestade em um verdadeiro espetáculo da natureza.

 

Brock terminava de lavar os pratos, enquanto Misty limpava cuidadosamente a incubadora e o próprio ovo. Próximo dali, Serena escovava os pelos de Fennekin, que já havia sido seca com toalhas e um secador portátil.

 

Bill permanecia sentado diante de seu computador, analisando alguns dados enquanto apreciava calmamente uma xícara de café.

 

Quando terminou de enxugar os últimos pratos, Brock aproximou-se do pesquisador.

 

— Está trabalhando em algum projeto novo, Bill?

 

— Apenas um protótipo... — respondeu ele, interrompendo a digitação por um instante para organizar os pensamentos. — Algo que tornará a transferência de Pokémon por ondas de rádio ainda mais prática.

 

— Uau... Parece complicado. — comentou Misty, que havia escutado o que fora dito enquanto guardava a incubadora com seu ovo já bem lustrado.

 

— Um pouco! — sorriu Bill. — Mas, como eu disse, ainda é apenas um protótipo. Todos os meus projetos começaram como simples ideias. A diferença é que algumas delas ganham força justamente nos momentos de dificuldade.

 

— Falou e disse! — concordou Brock. — A propósito, eu adoraria conhecer alguns dos seus outros estudos.

 

— Eu também adoraria. — manifestou-se Serena com um sorriso tranquilo. — Seria bom distrair a mente com algo diferente.

 

Misty concordou com um aceno, igualmente curiosa para ver as novidades que o pesquisador tinha a mostrar.

 

A reação dos três pareceu animar Bill imediatamente. Não era comum receber visitas naquele farol, muito menos encontrar pessoas genuinamente interessadas em suas pesquisas. Por isso, ver tamanho entusiasmo era algo bastante gratificante.

 

Com um sorriso renovado, o cientista e jornalista os convidou a conhecer seu pequeno laboratório, apresentando alguns de seus projetos mais recentes enquanto respondia às perguntas de Brock e das garotas.

 

E, pela primeira vez naquela noite, Bill parecia completamente à vontade, falando sobre seu trabalho com uma empolgação impossível de esconder.

 

Enquanto isso, Ash apenas descansava ao lado de Pikachu – nunca se interessara tanto por ciência, afinal de contas.

 

Pouco depois, porém, seu olhar recaiu sobre Riley. O Guardião permanecia afastado do restante do grupo, próximo à escadaria que levava ao segundo andar. Com os braços apoiados na ampla janela, observava a tempestade lá fora, enquanto mantinha o ovo protegido ao seu lado.

 

— Estou preocupado, Lucario.

 

— Rar...

 

Lucario respondeu de forma confiante, como se garantisse que estavam seguros por enquanto. Ainda assim, havia um traço de preocupação em seu olhar.

 

Foi então que Riley se surpreendeu com a aproximação de Ash, acompanhado por Pikachu em seu ombro. Estava tão absorto em seus pensamentos que nem sequer notara a presença do garoto através da Aura.

 

— Oi. Eu sei que você provavelmente quer ficar sozinho, mas... queria saber se está tudo bem. / Pikapi! — disse Ash, um pouco sem jeito.

 

— Não vejo problema. — respondeu Riley, sem se incomodar com a aproximação. — Sendo sincero, estou bem. Apenas refletindo sobre algumas coisas.

 

— Entendo... — Ash coçou a nuca, um pouco constrangido pela postura sempre reservada do homem.

 

Por alguns segundos, o silêncio pairou entre eles.

 

— Ei... será que eu posso encostar no ovo?

 

— Hã? — Riley piscou, surpreso com o pedido inesperado.

 

Por um momento, ele ponderou a respeito. No fim, não via motivo para negar algo tão simples – nesse momento, confiava o bastante no garoto.

 

— Bem, não vejo por que não. Só tome bastante cuidado.

 

— Ah! Muito obrigado! — Ash abriu um sorriso. — Eu sempre tive curiosidade de segurar um ovo Pokémon. O da Misty vive na incubadora, e ela nunca deixa eu pegar quando está limpando.

 

A animação genuína do garoto arrancou um leve sorriso de Riley.

 

Riley estendeu a incubadora já aberta para o moreno, que recebeu o ovo com todo o cuidado.

 

Entretanto, no exato instante em que Ash o segurou, algo inesperado aconteceu.

 

— E-ei! O que é isso? / Pikapi?! — Ash e Pikachu se assustaram ao ver o ovo começar a emitir um brilho azulado pulsante.

 

— I-isso é... / Raaaar... — Riley e Lucario também demonstraram surpresa diante daquela cena.

 

Aquilo definitivamente não era algo que esperavam.

 

“Não pode ser... o ovo está reagindo a ele?!” — pensou Riley, compreendendo imediatamente o que aquele fenômeno poderia significar. — “Isso nunca aconteceu com ninguém antes... A menos que...”

 

Seus pensamentos cessaram por um instante.

 

Era uma hipótese extrema, mas, se o ovo havia reagido ao moreno daquela forma, talvez só pudesse haver uma explicação.

 

Será que ele realmente deveria depositar suas esperanças naquele rapaz?

 

“Eu jamais imaginei um cenário como esse... Mas esse garoto...” — refletia Riley, observando Ash com atenção. — “Será que eu devo?”

 

Nenhum risco parecia alto demais quando o objetivo era manter aquele ovo em segurança. Ainda assim, era uma decisão difícil.

 

— Mas que brilho é esse, Riley? Isso já aconteceu antes? / Pika?! — perguntou Ash, ainda encarando o ovo luminoso com nervosismo mesclado a curiosidade.

 

— B-bem... isso é um sinal de que a Aura do Pokémon dentro do ovo, de alguma forma, entrou em ressonância com a sua. — respondeu por fim, deixando Ash ainda mais confuso.

 

— A-Aura? Você mencionou isso antes, mas... o que exatamente é Aura? Por favor, me explique! — insistiu Ash, ansioso por respostas. — Quem é você de verdade, Riley?

 

Ash sabia que talvez fosse inútil perguntar. Afinal, Riley já havia se recusado a falar sobre aquilo antes. Ainda assim, sua curiosidade era forte demais para simplesmente ignorar. Queria entender os acontecimentos que o cercavam e, quem sabe, descobrir se poderia ser útil de alguma forma.

 

Naquele momento, Riley sabia.

 

Em seu íntimo, não deveria revelar informações confidenciais. Entretanto, a situação havia mudado completamente. A reação entre o ovo e o garoto tornava tudo muito mais complicado, e aquele fenômeno era um indicativo claro de que não poderia simplesmente deixá-lo sem respostas.

 

— A verdade, garoto... é que eu sou um Guardião de Aura. — revelou, assumindo uma expressão decidida.

 

Ele havia tomado sua decisão.

 

Agora, estava disposto a arcar com qualquer consequência que isso pudesse trazer no futuro.

 

— Guardião de Aura? Mas o que...? — Ash apenas ficou ainda mais confuso.

 

Além do mais, por que Riley decidira contar aquilo justamente agora? Mesmo tendo pedido por isso, não imaginava que receberia respostas.

 

Havia tantas perguntas se acumulando na mente do palletiano que ele tinha a sensação de que sua cabeça iria explodir.

 

— Nós somos descendentes de uma linhagem ancestral, cuja história é longa demais para eu contar agora. Mas basta saber que possuímos uma ligação profunda com a energia vital do universo. — explicou calmamente. Ainda assim, havia um leve receio por trás de suas palavras. — E essa energia é justamente a Aura.

 

— Mas essa Aura... — disse Ash, um pouco mais calmo. — O que ela é exatamente?

 

— Como mencionei antes, a Aura é uma energia milenar que permeia todos os seres vivos. Humanos, Pokémon, plantas e até mesmo objetos possuem Aura. Entretanto, ela só pode ser manipulada por um seleto grupo de pessoas e Pokémon. Lucario, por exemplo, está entre aqueles capazes de utilizá-la, sendo considerado o Pokémon que melhor domina esse poder.

 

— Uau... — Ash ficou impressionado com a explicação. — Mas então, se o ovo está reagindo...

 

— Exatamente. Isso significa que este ovo entrou ressoou com a Aura que existe dentro de você. Nós, Guardiões da Aura, temos o dever de preservar o equilíbrio espiritual do mundo. Por isso, além de viajarmos por diversas regiões para purificar locais afetados por energias instáveis, também buscamos pessoas e Pokémon capazes de manifestar esse fenômeno, zelando por sua segurança.

 

— M-mas... o que isso tem a ver com o ovo ter reagido à minha Aura? / Pika? — perguntou Ash, ainda tentando acompanhar tudo aquilo.

 

— A resposta é simples. Este ovo deveria ser levado ao Reino de Rota. Lá, nós, Guardiões da Aura, os mantemos protegidos até encontrarmos alguém com quem compartilhem uma conexão de Aura compatível. Porém... o ovo reagiu justo agora.

 

Riley fez uma breve pausa antes de continuar.

 

— Isso significa que foi você quem ele escolheu. Por mais inacreditável que isso possa parecer.

 

Ash estava completamente atônito. Certamente, não esperava por tudo isso.

 

— Bem... acho que não devo contar sobre os Guardiões da Aura para os meus amigos, né? — perguntou após alguns instantes, exibindo um sorriso sem jeito enquanto tentava processar tudo o que acabara de descobrir.

 

— Em circunstâncias normais, não. Mas... se o Treinador escolhido pelo ovo confia o bastante em seus amigos para compartilhar um segredo tão importante, então não vejo motivo para me preocupar. — Riley esboçou um leve sorriso, embora sua expressão logo voltasse a ficar séria. — No entanto, se mais alguém descobrir sobre os Guardiões da Aura, isso poderá trazer problemas. Restam poucos de nós, e não podemos correr esse risco. Por isso, eu lhe peço: não conte isso para ninguém além dos seus amigos.

 

O olhar de Riley se tornou firme.

 

— Você pode me prometer isso?

 

— Eu prometo! — respondeu Ash sem a menor hesitação - ele jamais faria algo que pudesse prejudicar alguém.

 

Ao ouvir aquela resposta, Riley abriu um pequeno sorriso.

 

— Escute bem, garoto. Foi uma decisão difícil, mas eu me decidi: você deve assumir essa responsabilidade. Deve proteger este ovo, custe o que custar. — declarou com seriedade.

 

— Raaaar! — Lucario também se pronunciou, demonstrando que compartilhava da mesma opinião de seu parceiro.

 

— E-eu... — Ash hesitou por um instante. Tudo estava acontecendo rápido demais. Ainda assim, compreendia que não podia simplesmente virar as costas para algo daquela magnitude. O ovo o havia escolhido e, por isso, fugir da responsabilidade não era uma opção. — Eu farei isso, Riley! Vou proteger esse ovo!

 

— Pikaaa! — Pikachu também se manifestou, demonstrando a mesma determinação de seu Treinador.

 

— Ótimo. — Riley assentiu, satisfeito com a resposta. — Mas agora temos um problema.

 

— Qual? / Pi? — perguntou o moreno.

 

— Para ser sincero, devemos partir amanhã bem cedo. Porém, precisamos considerar a possibilidade de que a Equipe Rocket prepare uma emboscada enquanto estivermos saindo daqui. — explicou Riley. — Afinal, mesmo que eles não entrem neste farol, sabem que não poderemos permanecer escondidos para sempre.

 

Seu semblante se tornou mais sério.

 

— É um cenário que definitivamente não podemos descartar.

 

 — É verdade... — concordou Ash, compreendendo que a preocupação de Riley fazia sentido.

 

— Mas não se preocupe. Se seguirmos o plano, conseguiremos desviar a atenção deles.

 

— Plano? Que plano? — indagou Ash, curioso.

 

— Vamos voltar. Vou compartilhá-lo com todos vocês. — respondeu Riley com um leve sorriso, confiante de que sua ideia funcionaria.

 

Com isso, Riley, Lucario e Ash retornaram para a sala principal.

 

Os demais logo notaram a chegada deles e se surpreenderam ao ver o jovem de Pallet carregando o ovo nos braços.

 

— Ei! Vocês demoraram! O que foi que vo... — Misty interrompeu a própria frase ao notar algo incomum.

 

O ovo emitia um brilho azulado que pulsava ritmicamente, variando de intensidade a cada instante.

 

— P-por que o ovo está brilhando assim, Ash? — perguntou Serena, claramente preocupada com aquele fenômeno inesperado.

 

Ash e Riley trocaram um rápido olhar e, imediatamente, o garoto entendeu o que precisava fazer.

 

— Nós vamos explicar tudo. E além disso... Parece que o Riley tem um plano para caso da Equipe Rocket resolva agir. — declarou o rapaz, assumindo uma expressão séria.

 

Logo, o ambiente fora tomado por um debate incisivo.

 

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No dia seguinte, por volta das quatro da manhã, uma densa neblina ainda cobria toda a região. O som das ondas quebrando contra as rochas ecoava ao redor do farol, abafado pelo manto esbranquiçado que envolvia a costa.

 

As nuvens permaneciam carregadas, e a visibilidade continuava limitada. Ainda assim, a chuva agora caía de forma mais branda, permitindo distinguir parte da paisagem ao redor.

 

Em meio àquela aparente tranquilidade, uma movimentação silenciosa ocorria entre as colinas da floresta próxima. Um contingente da Equipe Rocket avançava cuidadosamente pela mata, aproximando-se do farol. As tropas se espalhavam pelos pontos mais altos do terreno, cercando a área por cima enquanto aguardavam novas ordens.

 

Pouco depois, duas figuras assumiam a dianteira da operação.

 

Cassidy e Butch observavam a construção à distância, os olhos carregados de expectativa.

 

Ambos sorriam - finalmente haviam encontrado o que procuravam.

 

A busca demorara mais do que o esperado. As interferências causadas pela tempestade e pelas constantes oscilações eletromagnéticas haviam confundido o aparelho de rastreamento da Cassidy durante boa parte da noite.

 

Ainda assim, isso já não importava.

 

Depois de horas de perseguição, seu alvo estava bem diante deles.

 

Naquele momento... não havia escapatória.


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