Pokémon: TLD - Capítulo 19: O Peso de Proteger Algo Frágil
A chuva continuava a cair
suavemente, mesmo sob a densa neblina que envolvia a costa. O brilho do farol
se destacava na paisagem, mas a visibilidade continuava baixa, sendo essa uma
grande vantagem para os Rockets, que conseguiram se esgueirar entre as árvores
sorrateiramente sem serem notados.
— Bem, quem diria que realmente o
Detector de Ondas
Eletromagnéticas fosse tão útil? Hehehe. Bom trabalho, Cassidy — elogia Butch.
— Obrigada. Eu sempre tenho
ótimas ideias — vangloria-se a mulher. A tempestade acabou sendo mais forte do
que ela imaginava, o que atrapalhou a detecção. Mas, graças a esse fator, a
eletricidade do Pikachu fora potencializada, o que ajudou o dispositivo a
localiza-lo mais facilmente entre dezenas de fontes eletromagnéticas na região
– foi uma mão na roda.
Rapidamente, os Grunts se
mobilizavam em formação, com diversos veículos a postos, cercando ao redor do
penhasco de forma a impedir a fuga de qualquer indivíduo.
— Senhora Cassidy! Senhor Butch!
As unidades já cercaram o farol e estão em posição. Devemos invadir o local e
capturá-los? — indagou um dos agentes, dirigindo-se aos seus superiores.
— Não. Invadir o local está fora
de cogitação. — respondeu Cassidy com firmeza, deixando o Rocket visivelmente
confuso.
— E por que? — questionou Butch,
tentando compreender a lógica da parceira. — Só a gente já seríamos mais do que
suficientes para esmagar aqueles vermes.
— Não tenho dúvidas disso. —
concordou a loira. — Mas aquele farol, se as informações que obtive estiverem
corretas, pertence a Bill Wright. Ele não é apenas um pesquisador Pokémon
renomado; também é jornalista e possui conexões importantes com diversos
veículos de comunicação de Kanto. Se invadirmos o local ou causarmos qualquer
dano à propriedade, há grandes chances de acabarmos estampados em manchetes de
jornais e telejornais. — explicou calmamente, analisando o caso.
— Tch... — Butch estalou a língua
em irritação. — Entendo. Um passo em falso e acabaremos expondo a Equipe
Rocket. Que frustrante.
— Mas não precisa perder a calma,
Butch. — Cassidy o tranquilizou com um sorriso confiante. — Afinal, eles já
estão completamente cercados. Tudo o que precisamos fazer é pressioná-los
psicologicamente até que saiam do esconderijo por conta própria. E mesmo que o Wright
apareça com alguma câmera, dificilmente conseguirá registrar algo útil com essa
neblina e esse clima horrível. — afirmou antes de voltar sua atenção para um
dos subordinados. — Ei, você!
— S-sim, senhora! — respondeu o
Grunt, endireitando a postura.
— Vá buscar o megafone.
— S-sim, senhora! — assentiu
rapidamente, apressando-se para cumprir a ordem.
Rapidamente, o agente retornou
com o objeto que havia deixado no jipe e o entregou à líder da operação.
Cassidy apertou o botão de
ativação e, em seguida, levou o amplificador à boca.
— ATENÇÃO! NÓS SOMOS A EQUIPE
ROCKET! QUEREMOS ALGO QUE NOS FOI TOMADO! É MELHOR NÃO PENSAREM QUE PODEM
FUGIR, JÁ CERCAMOS TODA A ÁREA AO REDOR. SAIAM DO FAROL E RENDAM-SE!
Após o anúncio, apenas o silêncio
respondeu.
Os segundos se arrastaram. Um
minuto. Dois. Três. Nada.
Eventualmente, cinco minutos se
passaram sem qualquer reação vinda do interior do farol.
— Grrr... isso é um ultraje! —
resmungou Butch, irritado. — Já se passaram vários minutos e eles nem sequer
deram sinal de vida.
Então, a porta do chalé se abriu
lentamente.
Riley surgiu do interior da
construção. Sob um velho pano acinzentado, carregava um volume cuidadosamente
acomodado entre os braços. Ele encarou os Rockets por alguns instantes e, com
impressionante tranquilidade, ajustou a carga contra o peito antes de avançar
alguns passos, sem demonstrar qualquer pressa ou preocupação.
Ao seu lado, Lucario o
acompanhava em silêncio, mantendo o olhar atento e a postura firme.
— Hehe. Então ele finalmente
desistiu e resolveu se entregar? — indagou Butch, exibindo um sorriso
satisfeito.
— Talvez. Mas é melhor não
baixarmos a guarda. — Cassidy estreitou os olhos. — Nossa operação está perto
do fim.
Riley, porém, não parecia acuado.
Ele respirou fundo, mantendo a
calma enquanto observava os Rockets à distância.
A parte mais importante de sua
missão estava prestes a começar.
— Lucario... faça o que combinamos.
— Raaaar! — respondeu o Guardião
Pokémon, acatando a ordem de imediato.
Fechando os olhos e unindo as
patas em posição de meditação, o chacal permaneceu imóvel por alguns instantes.
Uma energia azulada começou a emanar suavemente ao seu redor e, após poucos
segundos de concentração, ele tornou a abrir os olhos.
— Raaaar! — latiu Lucario.
— Entendo. Então vamos colocar o
plano em prática. — declarou Riley, exibindo um pequeno sorriso confiante.
Os dois seguiram adiante em
passos lentos e controlados, sem demonstrar qualquer movimento suspeito ou
precipitado.
À distância, Cassidy e Butch
observavam atentamente a dupla, tentando interpretar suas intenções. Ainda
assim, permaneciam tranquilos. Em suas mentes, não havia motivo para
preocupação.
— O que eles estão fazendo? —
perguntou Butch, franzindo a testa.
— Estão vindo na nossa direção. —
respondeu Cassidy, sem desviar o olhar. — Ao que tudo indica, finalmente
decidiram se render.
Conforme avançavam para longe do
farol e se aproximavam da linha da floresta, Riley e Lucario começaram a
acelerar gradualmente o passo.
— É esse o momento. Agora,
Lucario. — falou em voz baixa para seu parceiro.
Acatando a ordem, Lucario recuou
as patas para junto da cintura, concentrando entre elas uma intensa energia
azulada.
Daquela distância, a dupla Rocket
não conseguia distinguir exatamente o que estava acontecendo. Ainda assim, um
mau pressentimento percorreu a espinha de Butch.
— E-ei, Cassidy... fique alerta.
Acho que eles estão planejando alguma coisa. — avisou ele, alarmado.
— É o que parece. — concordou a
parceira, estreitando os olhos.
— Agora, Lucario! Aura Sphere!
— bradou Riley.
Antes que os Rockets pudessem
reagir, Lucario saltou para o alto e lançou as patas à frente. A esfera
condensada de Aura disparou como um projétil azul brilhante, atingindo o solo
bem diante do batalhão.
A explosão gerada ergueu uma grande
cortina de terra, poeira e detritos, engolindo a linha de visão dos Rockets em
questão de segundos.
Aproveitando o caos, Riley e
Lucario atravessaram a brecha no cerco e dispararam mata adentro.
— Cof... cof... o que foi isso?!
/ Cof... então esse era o plano dele... Algum membro ferido? — questionaram
Butch e Cassidy em sequência.
— Estamos bem! O ataque não
atingiu ninguém do pelotão! — relatou um dos Grunts.
— Aquele desgraçado está fugindo
para a floresta! — esbravejou Butch.
— Senhora Cassidy! Isso pode ser
uma armadilha. Aqueles Treinadores ainda devem estar no farol. Se formos
rápidos, talvez possamos... — começou um dos agentes.
— Não vale a pena desperdiçar
tempo com algo incerto. — Cassidy o interrompeu imediatamente.
A loira observou a direção para
onde Riley havia corrido. Mesmo com a chuva e a neblina, ela tinha certeza de
ter visto o volume que ele carregava nos braços.
Eles presumiam que aquele era o
ovo - e era a única coisa que realmente importava. O resto seria melhor
ignorar.
— Além do mais, pelos relatórios
que li, aqueles pirralhos não são uma ameaça. Foquem no alvo principal. —
ordenou ela. — Atrás dele!
Sem perder mais tempo, o grande
contingente da Equipe Rocket voltou a se mover, avançando pela mata em
perseguição ao fugitivo que mais uma vez ousara fugir deles.
Eventualmente, o silêncio voltou
a dominar o farol, como se toda aquela movimentação tivesse sido apenas um
delírio causado pela neblina da madrugada.
Após cerca de dez minutos, Bill
decidiu sair da residência para verificar os arredores. Ao constatar que não
havia mais ninguém por perto, fez um breve aceno para dentro.
— Está tudo bem. Podem sair. —
sussurrou.
Ao ouvirem isso, Ash e os demais
finalmente deixaram o interior do chalé. O alívio era evidente em seus rostos
ao perceberem que a confusão havia passado.
— Parece que deu certo. —
comentou Misty.
— De fato. Riley estava certo em
sermos cautelosos quando o amanhecer chegasse. — concordou Serena.
— Bem, acho melhor partirmos
logo. Não podemos desperdiçar essa oportunidade. — sugeriu Brock.
Entre todos, apenas Ash ainda
carregava um semblante inquieto. Mesmo com tudo indo de acordo com o plano, ele
não conseguia se sentir completamente tranquilo.
Serena percebeu isso
imediatamente.
Não era comum vê-lo tão abatido
ou pensativo. Ainda assim, ela compreendia seus sentimentos. Afinal, diante de
tudo o que havia acontecido, até ela própria não conseguia evitar uma sensação
de conflito.
— Ash... — murmurou a kalosiana,
chamando a atenção do garoto.
— Está tudo bem, Ash? — perguntou
Brock.
— A-ah, sim! N-não é nada! /
Pikapi... — respondeu o moreno, saindo de seu transe, enquanto o pequeno rato
elétrico demonstrava a mesma preocupação pelo amigo.
— Bem, pessoal, é aqui que nos
despedimos. Peço sinceras desculpas por não ter sido tão útil nessa situação. —
disse Bill, exibindo um sorriso discreto.
— Não diga isso, senhor Bill.
Graças ao senhor, tivemos um lugar seguro para descansar e nos preparar para
tudo isso. Além do mais, com o presente que nos deu, temos uma boa chance de
despistar a Equipe Rocket de uma vez por todas. Somos nós que devemos
agradecer. — respondeu Brock, com um sorriso.
— Fico feliz em ouvir isso. — o
jornalista sorri ainda mais. — Espero que consigam atravessar o trajeto em
segurança.
— Nós iremos. — confirmou Misty.
— Até mais, senhor Bill. / Pikaa!
— despediram-se Ash e Pikachu, enquanto o restante do grupo também acenava em
agradecimento.
Sem perder tempo, seguiram em
frente pela chuva envolta em neblina. Logo depois, Brock passou a guiá-los por
uma trilha que adentrava a floresta.
Todos corriam pela mata,
conscientes de que cada minuto era precioso naquela situação. O perigo ainda
não havia desaparecido - pelo menos, não completamente. Ash sentia isso melhor
do que ninguém enquanto carregava nos braços a incubadora com o ovo que Riley
havia confiado aos seus cuidados.
— “Riley... será que esse
plano realmente vai funcionar?” — pensava o palletiano, recordando a
conversa da noite anterior, quando o Guardião lhes explicou a estratégia que
utilizariam contra a Equipe Rocket.
Um plano arriscado, mas que, caso
tudo ocorresse conforme o desejado, seria a chave para escaparem.
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Algumas horas antes, na noite do
dia anterior...
O grupo estava reunido mais uma
vez ao redor da mesa do farol. O clima era sério, e todos aguardavam enquanto
Riley organizava os pensamentos antes de expor o plano que tinha em mente.
Serena havia recolhido Fennekin para a Poké Ball para mantê-la segura,
prestando total atenção no que o Guardião falaria.
— É o seguinte... Eu sei que isso
vai soar absurdo, mas sou eu quem eles querem. — começou o Guardião. — Por
isso, eu serei a isca.
— Espera aí... quê?! — Ash quase
se levantou da cadeira. — Tá falando sério, Riley?!
— Completamente sério. / Rar! —
confirmou ele com tranquilidade. — Enquanto eu os atraio, vocês esperam a deixa
e vazam. Não importa para onde, desde que seja o mais longe daqui.
— Mas isso é arriscado demais.
Como pode ter certeza de que a Equipe Rocket não vai desconfiar? — questionou
Misty.
— Pelo pouco que observei deles durante
o tempo que os persegui, eles colocam a missão acima de qualquer outra coisa. Por
isso, eu vou carregar exatamente aquilo que eles querem. — explicou Riley com
um leve sorriso. — Se me virem levando o ovo, não vão pensar duas vezes antes
de virem atrás de mim.
— Então você planeja levar o ovo
com você?! — espanta-se Serena.
— Você só vai colocar o ovo em
risco desnecessário, Riley! Você sabe disso! — argumenta Brock. — O que garante
que você vai lidar com todos eles sozinho?
— Mas quem disse que vou levar o
ovo comigo? — sorri Riley, deixando os demais com expressões confusas. — Eu
combinei que deixaria esse ovo aos seus cuidados, e é o que farei. — fala,
voltando o olhar para Ash.
— Espera... Isso é verdade, Ash?
— surpreende-se Serena, encarando o garoto.
— Foi sim! — assente. — De alguma
forma, o ovo me escolheu. Mas é um assunto meio longo. Acho que não temos tempo
pra falar disso agora.
— De acordo. — concorda Bill,
tomando um gole de café. — Voltando à questão... Você tá querendo dizer que não
pretende levar o ovo, mas fazer essa Equipe Rocket acreditar que você tá com
ele... Estou correto?
— Precisamente! — confirma Riley.
— Estou certo de que eles me seguirão, assim vocês ficarão livres pra fugirem
com o ovo quando eu estiver longe o suficiente.
— Espera um pouco aí... Eu tô
confusa. — Misty ergue uma sobrancelha em ceticismo. — Por quê a Equipe Rocket
pensaria que você tá com o ovo? — não era exagero a ruiva fazer aquele
questionamento; os demais também compartilhavam da mesma dúvida.
— Com esse temporal todo, é
impensável que eles consigam distinguir alguma coisa. Por isso... só preciso da
distração perfeita. — sorri Riley, voltando o olhar para Misty. — Você...
— Eu...? — a ruiva inclina a
cabeça, confusa.
— Olha... Eu sei que vai ser um
pedido extremo, mas preciso que você me empreste a incubadora do seu ovo. —
pede, sem rodeios.
— Como é?!!! — Misty se indigna
com tal pedido. — Mas por quê?!
— Entendi... Se você levar uma
incubadora vazia, eles vão pensar que você tá levando o ovo junto. — analisa
Bill, com uma expressão pensativa. — Bom plano, embora ainda arriscado.
— Espera um pouco aí! Eu ainda
não concordei com isso! — reclama a ruiva, irritada por eles falarem como se
isso já estivesse resolvido. — Por que não usa a incubadora dele mesmo?!
— Infelizmente não posso! / Rar!
— responde o Guardião, olhando para as mãos de Ash. — Esse ovo possui
propriedades únicas, o que lhe foi atribuído uma incubadora especial. Se fosse
qualquer outra, na hora do nascimento, poderia acarretar em sérios problemas
genéticos.
— Propriedades únicas? Problemas
genéticos? — murmura Ash. — Riley, do que você...?
— Vocês saberão um dia. — é
apenas o que diz. — Não temos tempo para discutir isso. Eles já devem estar a
caminho.
Mais uma vez, ele volta o olhar
para Misty.
— Por favor... Eu imploro pra
você. Prometo que te devolvo. Só... me dê essa esperança. — o homem quase se
curvava em súplica. Ele não podia falhar naquela missão. Nesse momento, seu
orgulho pouco importava.
Ficava claro que Misty estava
desconfortável com aquela situação. Ela jamais imaginaria ver alguém implorando
daquela forma diante dela.
— Misty... — Brock chama a
atenção da ruiva. — O que você vai fazer?
A garota olha ao redor da mesa.
Todos à sua frente aguardavam sua resposta com expressões ansiosas.
Após alguns segundos de reflexão,
a ruiva soltou um suspiro derrotado.
— Bem... Acho que posso aceitar.
— decide, virando levemente o rosto e fazendo um bico. — Que escolha eu tenho?
Também não quero que seu ovo, ou melhor, o ovo do Ash, caia nas mãos da Equipe
Rocket. — diz, pensando em seu próprio
— Você tem a minha mais sincera
gratidão. — sorri Riley, curvando-se novamente.
— Tá, tá! Só pare de se curvar! —
exige a garota. — Fico até meio mal com isso!
Pequenas risadas se espalham pela
mesa diante da reação dela.
— Acho que esse é o plano, então.
— Serena para de rir e volta sua atenção para o Guardião. — Só que... ainda não
é garantido.
A preocupação da kalosiana era
evidente. Mesmo conhecendo Riley há pouco tempo, ela havia passado a simpatizar
com ele, apesar de sua personalidade reservada.
Além disso, vê-lo agir daquela
forma diante de Misty mostrava um lado humilde que a caramelada não podia
deixar de admirar.
— Serena tá certa, Riley. —
concorda Ash. — Como você vai lidar com todos eles?
— Não se preocupem comigo! Eu sou
forte. — afirma com confiança. — Pode não ter parecido quando nos conhecemos.
Mas com o Lucario já recuperado, podemos sim atrasá-los. Não concorda, parceiro?
— Rar! — confirma o chacal,
irradiando Aura ao redor do corpo como prova de que continuava em plena forma.
— Bem... — Ash fala. — Se você tá
tão seguro, acho que podemos confiar, pessoal! Não temos outra alternativa.
O restante do grupo levou alguns
segundos antes de assentir - o plano estava decidido.
Horas depois, poucos minutos
antes da Equipe Rocket cercar o farol...
Todos estavam posicionados diante
da porta do chalé, aguardando o momento certo para colocarem o plano em
prática.
Riley havia voltado a vestir sua
capa e utilizava um pano dado a ele por Serena para cobrir a incubadora vazia
de Misty, que carregava nos braços. Enquanto isso, a ruiva mantinha seu ovo
guardado em segurança dentro da mochila.
— Acho que é isso... Só temos que
esperar o momento certo. — fala Riley, se apoiado contra a parede.
— E como sabemos qual o momento
certo? — pergunta Brock. Se o Guardião demonstrava tanta confiança, então
provavelmente já tinha pensado nesse detalhe.
— Eu e o Lucario saberemos quando
eles se aproximarem. — é só o que responde.
Brock e os demais aceitaram a
resposta por ora. Não havia motivo para insistir.
Nesse momento, o ovo que Ash
carregava voltou a emitir o brilho azulado.
— Olhem, tá brilhando de novo. —
percebe Misty.
— Que intrigante... — murmura
Bill, levando um dedo ao queixo enquanto observava o fenômeno.
— Está reagindo novamente com sua
Aura. Isso vai acontecer mais vezes até eclodir. / Rar! — diz Riley e Lucario.
— Eu... ainda não entendi como
isso funciona. — fala Serena. Ash e Riley haviam explicado brevemente sobre a
Aura e os Guardiões, mas de forma bastante resumida. Ainda assim, era algo
difícil de absorver.
— Tenho certeza que o garoto terá
tempo de explicar melhor depois. Mas mais importante... — Riley encerra o
assunto e volta o olhar para Ash. — Espero que você não se esqueça da nossa
promessa. Esse ovo, proteja-o com a sua vida.
Os dois se encaram com seriedade,
observados atentamente pelos demais.
A princípio, Serena se preocupava
quanto a ideia de Ash usar sua vida. Era um cenário ao qual ela nem queria
imaginar. Por isso, ajudaria o amado no que ele precisava para proteger aquele
ovo. Custe o que custar.
— Você nem imagina a importância
dele. Por isso... faça o possível para mantê-lo longe da Equipe Rocket. / Rar!
— Eu já disse e repito, Riley!
Comigo, esse ovo tá protegido. — Ash sorri com convicção.
Riley apenas assentiu, ciente da
determinação do jovem. Não desgostava daquela atitude... muito pelo contrário.
— Só queria saber que Pokémon...
— Espera! — Riley interrompe o
palletiano imediatamente, enquanto as orelhas de Lucario se moviam em alerta. —
Eles chegaram.
Todos ficaram confusos com essa
afirmação. Até que...
— ATENÇÃO! NÓS SOMOS A EQUIPE
ROCKET! QUEREMOS ALGO QUE NOS FOI TOMADO! É MELHOR NÃO PENSAREM QUE PODEM
FUGIR, JÁ CERCAMOS TODA A ÁREA AO REDOR. SAIAM DO FAROL E RENDAM-SE!
A voz feminina amplificada pelo
megafone ecoou por todo o farol, assustando os presentes, com exceção de Riley
e Lucario.
— Droga... São eles. — murmura
Brock, receoso de que a Equipe Rocket pudesse ouvir qualquer barulho que eles
fizessem.
— Demoraram mais do que imaginei.
— diz Riley, observando o exterior por uma fresta, onde conseguia distinguir
algumas luzes no alto de uma colina.
— “Se demoraram tanto, você podia
ter explicado por que esse ovo é tão especial.” — pensa Ash, erguendo uma
sobrancelha enquanto olha para Riley.
— Bem... Acho que é minha deixa.
— o Guardião fala, segurando firmemente a incubadora e abrindo a porta.
— Por favor, toma cuidado. — diz
Serena, juntando as mãos quase como uma prece.
Riley apenas assente.
— Lembrem-se! Esperem ao menos
dez minutos antes de saírem e correrem pela rota do lado. Conto com vocês! —
fala por fim, saindo pela porta junto de Lucario e dando início ao plano
definitivamente.
— Só não se esqueça de devolver
minha incubadora! — Misty eleva a voz para que Riley a escute do lado de fora.
Ela esperava sinceramente que ele tivesse a ouvido.
— E lá vai ele. — comenta Brock,
cruzando os braços.
— Se ele tá tão seguro de si,
então devemos dar esse voto de confiança. — sorri Bill, fechando a porta.
— Todo esse plano pode funcionar,
mas... não sei muito bem ainda como manter esse ovo seguro desses ladrões.
Nunca cuidei de um antes. / Pikapi... —
Ash lamenta, observando o objeto que carregava nos braços.
— Não se preocupe com isso, Ash!
A gente vai te ajudar. — sorri Misty. — Pode ser pouca, mas eu ainda tenho
alguma experiência em cuidar de um ovo Pokémon, como você pode imaginar. —
brinca, apontando para a própria mochila.
Serena se aproxima do amado com
um sorriso caloroso, confirmando com a cabeça.
Aquilo pareceu animar um pouco
mais o palletiano, que sentia parte do peso que carregava se dissipar.
— Mas ainda temos um problema,
pessoal. — Brock chamou a atenção do grupo. — Não dá pra ficar fugindo da
Equipe Rocket pra sempre. E, mesmo que o plano dê certo, não podemos descartar
a possibilidade de cruzarmos com eles de novo em algum momento. Precisamos de
uma rota de fuga eficiente para despistá-los de vez. Pelo menos a longo prazo.
— Brock tá certo. Mas o que
fazemos? — Misty se deu conta desse detalhe que o amigo pontuou.
Todos ficaram pensativos. O tempo
passava, e precisavam encontrar uma solução o quanto antes.
Foi então que Bill parece se
tocar de algo.
— Quer saber...? Acho que posso
ajudar com isso. — sorriu o pesquisador, despertando imediatamente a
curiosidade dos Treinadores. — Sacam só...
Bill retirou dois ingressos azuis
com adornos dourados e os exibiu diante do grupo.
Ash, Serena e Brock analisaram os
bilhetes sem reconhecer do que se tratavam. Misty, por outro lado, arregalou
levemente os olhos.
— Espera... Esses ingressos... —
murmurou a ruiva.
— Você já viu isso antes, Misty?
/ Pika? — indagaram Ash e Pikachu.
— Quando eu era criança, lembro
de ver minha mãe carregando ingressos assim para irmos assistir a um show das
minhas irmãs. Mas não lembro exatamente do que são. — respondeu Misty.
— Esses ingressos, meus caros,
são para o S.S. Anne, um dos maiores cruzeiros de luxo do mundo, que vai partir
daqui a alguns dias! — revelou Bill, abrindo um largo sorriso. — Esses adornos
indicam que são ingressos VIP, graças à minha profissão.
— Mas por que tá mostrando isso
pra gente? / Pikapi? — perguntou Ash.
— Simples! Vou dar eles pra
vocês! — respondeu Bill, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— Mas o quê? Não podemos aceitar,
Bill! — contestou Misty de imediato.
— Isso mesmo! Eles são seus. É a
sua viagem. Não podemos tirar vantagem de você. — Ash concordou com a ruiva.
Aquilo simplesmente não lhe parecia justo.
Brock e Serena também
compartilhavam da mesma opinião.
— Não esquentem com isso! Eu nem
conseguiria ir mesmo! — Bill fez um gesto despreocupado com a mão, deixando
todos ainda mais confusos. — Cada um desses ingressos permite que a pessoa leve
pelo menos um acompanhante. Inicialmente, iríamos eu, minha esposa e minha
filha. Além dos meus avós. — explicou, mostrando um terceiro ingresso que
carregava.
— Mas então...? — Ash começou a
falar, mas Bill se antecipou.
— Porém, minha esposa acabou
ficando doente, e não vamos mais conseguir ir ao cruzeiro. E, por causa disso,
meus avós também não querem mais viajar. — sorriu de forma calorosa ao se
lembrar da insistência deles em só irem caso toda a família estivesse reunida.
— Então, essa é a melhor oportunidade para vocês aproveitarem esses dois
ingressos. Encarem isso como um agradecimento por terem se interessado pelos
meus estudos. Quanto ao terceiro, eu dou um jeito de vender depois.
O pesquisador estendeu os dois
bilhetes, aguardando uma resposta dos Treinadores, que não demorou a vir.
— Nossa... Nem sei como
agradecer, senhor Bill! — Brock coçou a nuca, visivelmente encabulado.
— Você salvou nossa pele, cara! —
Ash sorriu, aceitando um dos ingressos, enquanto Brock ficou com o outro. Como
eram quatro pessoas, aquilo serviria perfeitamente.
— Você é muito gentil. — Serena
curvou-se educadamente em agradecimento, enquanto Misty apenas lhe ofereceu um
sorriso sincero.
— Gosto de fazer uma boa ação de
vez em quando. — brincou o pesquisador, arrancando alguns sorrisos do grupo.
Em seguida, ele voltou o olhar
para a porta.
— Enfim, acho que já passou tempo
suficiente. Vocês deviam se apressar.
Todos sabiam que o pesquisador
tinha razão.
Agora, tudo o que podiam fazer
era honrar o desejo de Riley e garantir que aquele plano tivesse a maior chance
possível de dar certo.
Tempos atuais...
Enquanto avançavam pela mata, a
chuva voltava a se intensificar. Os trovões tornavam a ecoar pelos céus
novamente, iluminando de forma breve a floresta envolta pela névoa formada
pelos pingos da chuva.
Mesmo assim, ninguém diminuía o
ritmo.
Durante a corrida, Ash levou uma
das mãos ao casaco e retirou o ingresso que Bill lhe entregara. Seus olhos
percorreram rapidamente o bilhete. Apesar do temporal, o material resistente
com que fora confeccionado impedia que a chuva o danificasse.
Aquele pedaço de papel
representava uma oportunidade valiosa.
Se tudo corresse bem, poderiam
finalmente colocar uma grande distância entre eles e a Equipe Rocket.
Ou, pelo menos, fazer todo o
possível para isso.
================================
Riley e Lucario avançavam
rapidamente pela floresta, desviando de árvores, raízes e arbustos com precisão
admirável.
Ainda assim, ambos sabiam que não
conseguiriam manter aquele ritmo para sempre.
Ao observar discretamente os
arredores, Riley notou os veículos da Equipe Rocket acompanhando sua
movimentação pelas colinas laterais. Era apenas uma questão de tempo até...
O Guardião afastou o pensamento
de imediato.
Não importava o que acontecesse
dali em diante. Seu único objetivo era mantê-los longe de Ash e dos demais.
Um leve sorriso surgiu em seu
rosto.
Subitamente, ele interrompeu a
corrida e alterou sua rota, mergulhando em uma área da floresta muito mais
fechada, onde a vegetação densa reduzia drasticamente a visibilidade e limitava
a passagem.
A mudança não passou despercebida
- a Equipe Rocket foi forçada a parar.
Cassidy e Butch desceram de um
dos jipes e observaram a direção para a qual Riley e Lucario haviam
desaparecido.
— Cassidy, os jipes não passam
por ali. Fazemos o que?! — resmungou Butch, cruzando os braços com evidente
impaciência.
A mulher avaliou rapidamente as
possibilidades, chegando à conclusão mais óbvia.
— Simples, Butch! — respondeu. —
Seguiremos a pé.
Sem perder tempo, ela deslizou
cuidadosamente pela encosta da colina, seguida de perto por Butch, até ambos
alcançarem o terreno enlameado abaixo.
— Quero pelo menos três motos nos
acompanhando! — ordenou a loira, virando-se para seus subordinados.
Os agentes assentiram prontamente
e trataram de cumprir a ordem sem questionamentos.
A caçada estava apenas começando.
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O Guardião e seu Pokémon
avançavam sem uma direção definida pela floresta, enquanto a chuva intensa
atingia seus rostos como pequenas lâminas de água.
Não sabiam exatamente para onde
estavam indo, mas uma coisa era certa: continuavam sendo perseguidos.
Ao atravessarem mais um arbusto,
chegaram a uma área de terreno plano.
Riley fechou os olhos por um
instante, analisando as Auras ao redor. Em seguida, trocou um olhar com
Lucario.
Os dois compreenderam a situação
imediatamente - estavam sendo flanqueados.
Aquela Equipe Rocket era muito
mais problemática do que haviam imaginado.
Agora não restavam dúvidas. Mais
cedo ou mais tarde, ficariam sem saída.
Só havia um caminho disponível, seguir
em linha reta. E foi exatamente o que fizeram.
Após percorrerem mais alguns
metros, o terreno aberto deu lugar novamente a uma mata densa. Porém, ao
avançarem por ela, ambos pararam de repente.
Haviam chegado à beira de um
penhasco.
Riley manteve a expressão séria,
como se já esperasse por aquele desfecho.
E, na verdade, esperava.
Ele soltou um longo suspiro e
ergueu o olhar para o céu acinzentado, deixando que a chuva atingisse seu
rosto. Ao seu lado, Lucario apenas o observava em silêncio.
— Acho que é isso, amigo. / Rar!
Logo em seguida, ambos sentiram
inúmeras presenças se aproximando.
Pelas laterais, jipes e algumas
motos surgiram após contornarem a área por um longo desvio. Atrás do Guardião,
diversos outros agentes da Equipe Rocket avançavam junto de mais três
motocicletas, encarando os fugitivos como predadores prestes a encurralar a
presa.
Caminhando lentamente para a
frente do grupo, Cassidy e Butch emergiram da penumbra. Ambos exibiam sorrisos maliciosos.
— Já não acha que ficamos tempo
demais nisso? — comentou a mulher ao parar alguns metros adiante, cruzando os
braços com tranquilidade.
— Foi um jogo de gato e rato
estressante, não concorda? — acrescentou Butch, lançando um olhar muito mais
hostil do que o de sua parceira.
— Sério? Não acham que o
pega-pega estava divertido? / Rar! — respondeu Riley com um sorriso tranquilo.
Não havia medo em sua expressão.
Nem sequer sinal de nervosismo.
— Não foi não! — rebateu o
esverdeado, enquanto uma veia saltava em sua testa. — Agora... Tá pronto para
entregar o que roubou?
— Primeiro, foram vocês que
roubaram. E segundo... Não! — foi tudo o que Riley disse antes de fechar o
semblante. — Lucario, Aura Sphere!
— Rar!
O chacal saltou com agilidade e
disparou uma esfera de energia azulada na direção de Cassidy e Butch.
Entretanto, nenhum dos dois
pareceu preocupado.
Com absoluta tranquilidade,
Cassidy apenas estalou os dedos. No que, imediatamente, um dos agentes acionou
um dispositivo acoplado à sua motocicleta.
Uma barreira luminosa de cor
verde surgiu ao redor dos comandantes, e no instante seguinte, a Aura Sphere
colidiu contra ela.
A explosão ecoou pelo local, mas
a proteção absorveu completamente o impacto, sem permitir que um único
fragmento de energia atravessasse.
— Como é?! / Rar?! — Riley e
Lucario ficaram visivelmente surpresos. — Mas como?
— A Equipe Rocket possui uma
tecnologia de ponta, não acha? — Cassidy sorriu enquanto a cúpula desaparecia.
— Agora... já que você nos atacou primeiro, espero que não se importe se
revidarmos.
Butch abriu um largo sorriso ao
comentário da parceira. Ele já estava ansioso por ação há bastante tempo.
Ao redor, os demais Rockets logo
sacaram suas Poké Balls.
— Lembrem-se! Não danifiquem a
mercadoria! — ordenava Cassidy.
Riley, que deixara a incubadora
em segurança atrás de si, começou a suar, embora isso passasse despercebido em
meio à chuva.
Sua situação não estava nada boa.
================================
Alguns minutos depois...
Riley estava de joelhos após
desviar de uma sequência interminável de ataques, enquanto seu ferido Lucario
permanecia de pé à sua frente, protegendo-o.
Vários Pokémon inimigos já haviam
sido derrotados e jaziam desacordados pelo chão.
Ainda assim, dois deles se
destacavam.
Um era um Raticate, só que muito
maior do que a média.
O outro se tratava de um grande
primata de pelagem espessa e branca, com uma expressão de poucos amigos e um
focinho rosado que se destacava em seu rosto.
Sua musculatura chamava atenção,
assim como os enormes punhos cercados por braceletes naturais, que transmitiam
uma sensação evidente de força.
— “A coisa tá ficando feia...
São muitos pra lidar.” — pensou Riley, cerrando os dentes. — “Só espero
que aquele garoto já esteja longe o bastante.”
— Raticate, use o Quick Attack
e acerte aquele homem! — ordenou Cassidy calmamente.
No mesmo instante, seu Pokémon
disparou para a frente em alta velocidade.
Lucario rapidamente se colocou no
caminho para interceptá-lo. Porém, quando a colisão parecia inevitável, o
grande rato mudou bruscamente sua trajetória, contornando o chacal e atingindo
Riley em cheio.
O Guardião sequer teve tempo de
reagir.
O impacto o lançou ao chão,
abrindo espaço para a incubadora ser facilmente alcançada pelos Rockets.
— Rar! — Lucario tentou correr em
auxílio de seu parceiro, entretanto...
— Primeape! — sorriu Butch.
— Priee! — O primata avançou e
agarrou o braço de Lucario antes do mesmo se mover, derrubando-o com violência contra
o solo antes de imobilizá-lo completamente.
— Lucario... — murmurou Riley em
meio à dor.
Enquanto isso, Raticate
permanecia sobre ele, mantendo-o pressionado contra o chão com um peso muito
acima do normal para um Pokémon de sua espécie.
Mas, mesmo sem isso, o cansaço já
cobrava seu preço. Depois de desviar de tantos ataques consecutivos, seu corpo
simplesmente não respondia como antes.
— Fica paradinho aí. — sorriu
Cassidy. — Lidaremos com você assim que tivermos nossa mercadoria em mãos.
Butch!
— Eu sei! — respondeu o
esverdeado, aproximando-se do objeto coberto pelo pano. — Missão cumprida,
Cassidy.
No entanto, assim que o pegou,
algo lhe pareceu estranho.
— Cassidy... — disse ele,
franzindo a testa enquanto balançava levemente a incubadora coberta. — O ovo
era pra ser tão leve assim?
A mulher ergueu uma sobrancelha.
— Como assim?
Mas, no instante seguinte, seus
olhos se arregalaram - a compreensão parecia finalmente alcançá-la.
— Butch... tira esse pano!
Sem perder tempo, o homem
obedeceu, desfazendo a cobertura que envolvia o objeto.
E o que encontraram os deixou
completamente atônitos: A incubadora estava vazia.
O choque foi tão grande que os
queixos da dupla quase bateram no chão. Os demais Rockets não estavam muito
diferentes.
Tinham certeza de que a missão
estava concluída. Para, no fim, encontrarem apenas uma incubadora vazia.
— C... Ca... Cassidy! O que
significa isso?! Não era pra ter um ovo mega valioso aqui?! — esbravejou Butch,
arremessando o objeto contra o chão com força, rachando parte da estrutura.
— Tá na cara que fomos enganados,
Butch! — respondeu a mulher, visivelmente irritada, embora tentasse manter a
compostura.
— Hehehe...
A risada de Riley chamou
imediatamente a atenção da dupla.
Com bastante esforço, ele
estendeu a mão e alcançou a incubadora de Misty. Afinal, ainda precisava
devolvê-la à dona.
— Não tá mais comigo. Que... pena
pra vocês.
As palavras saíram fracas. O peso
de Raticate continuava pressionando seu corpo contra o chão.
— Isso só pode significar que o
verdadeiro tá com o grupinho daquele pirralho com o Pikachu! — concluiu
Cassidy. — Eles devem estar fugindo nesse exato momento. E, já que o Wright não
costuma deixar o farol, ele não estará com eles.
— Não adianta! Vocês... jamais os
encontrarão. — sorri Riley, com plena confiança no que dizia. — Eles já devem
estar longe o suficiente.
— Cala essa boca! — Butch
exclama, voltando o olhar para a parceira em seguida. — E então, Cassidy? Matamos esse cara? —
questionou, observando o Guardião, que já parecia completamente derrotado.
— Ainda não... — respondeu a
mulher. — Seria mais vantajoso concluirmos a missão sem levantar muita poeira.
E podemos usar esse homem pra isso.
— O que quer dizer? — indagou seu
parceiro.
Cassidy não respondeu de
imediato. Em vez disso, voltou seu olhar para Riley.
— Prendam ele e o tragam conosco!
Vamos voltar à caça.
— Sim, senhora! — respondeu
prontamente um dos subordinados.
Assim que Raticate retornou para
o lado da loira, alguns Rockets avançaram sobre Riley e Lucario.
A dupla foi rapidamente
imobilizada com pesadas algemas metálicas e conduzida para perto dos
comandantes, sem qualquer chance de resistência em seu estado atual.
— E o que fazemos com isso? — um
dos Rockets perguntou, erguendo a incubadora que Riley havia derrubado ao ser
algemado.
— Joguem fora! Não passa de lixo.
— resmungou Butch, impaciente com qualquer detalhe que não envolvesse a missão.
Dando de ombros, o agente fez o
que lhe foi ordenado e arremessou a incubadora penhasco abaixo.
Riley apenas fechou os olhos por
um instante - não conseguiria devolvê-la para Misty.
— Agora, voltando ao que
interessa... Podemos rastrear os outros fujões com facilidade. — Cassidy
sorriu, retirando o dispositivo de rastreamento eletromagnético. — A tempestade
não está tão forte quanto antes, então será mais fácil. E, além disso, a neblina
já está se dissipando.
De fato, naquele momento, apenas
a chuva continuava castigando a região.
O nevoeiro desaparecia aos
poucos, tornando a floresta cada vez mais visível.
Por isso, distinguir qualquer
movimentação entre as árvores seria muito mais simples.
Riley, porém, não fazia ideia do
que aquele aparelho realmente fazia. Ainda assim, ao ver a confiança deles em
seu funcionamento, um mau pressentimento tomou conta de si.
— Vamos por aqui! E se
certifiquem de que o prisioneiro não escape. — foi tudo o que a loira disse
antes de seguir na direção indicada pelo aparelho.
Os demais Rockets prontamente a
acompanharam.
Riley e Lucario caminharam sem
oferecer resistência, já tendo aceitado o desfecho daquela situação. Afinal,
desde o início, ele sabia que havia uma grande chance de ser capturado.
Tudo o que importava agora era
uma única coisa - que aqueles jovens já estivessem longe da floresta.
Porém, enquanto avançavam sob a
chuva, o Guardião e seu Pokémon sentiram outra presença.
Uma presença que vinha dos céus.
Riley ergueu discretamente o
olhar, e foi ai que notara...
Algo cruzava as nuvens acima
deles, quase oculto pela chuva e pela escuridão. Algo que parecia refletir em
seu olhar.
Logo em seguida, um pequeno
sorriso surgiu em seu rosto. Um detalhe que passou completamente despercebido
pelos criminosos ao seu redor.
Parecia que os ventos estavam
prestes a mudar.
================================
Enquanto isso, Ash e os demais
continuavam avançando pela floresta, desta vez em um ritmo mais moderado.
Acreditavam já estar longe o bastante dos criminosos e, além disso, correr pela
mata naquele clima era arriscado.
Após tanto tempo em movimento, o
cansaço finalmente começou a cobrar seu preço.
Por isso, decidiram parar por
alguns instantes sob uma grande árvore, cujas copas densas impediam que a maior
parte da chuva os alcançasse.
Ash, mantendo a incubadora
coberta com alguns folhiços, se apoiou em uma pedra robusta e balançou
levemente a jaqueta encharcada numa tentativa inútil de secá-la. Ainda assim,
sua mente estava longe dali.
— Será que o Riley tá bem? /
Pika... — perguntou após um longo suspiro.
— Eu espero que sim. — respondeu
Serena, torcendo os próprios cabelos molhados.
— Devemos primeiro sair da
floresta. Vermillion tá logo ali. Então precisamos confiar no plano do Riley e
chegar ao porto. — aconselhou Brock.
Misty, sentada na grama, apenas
concordou em silêncio enquanto verificava cuidadosamente se o ovo permanecia
seguro.
— Eu sei! — respondeu o
palletiano. — Mas não consigo deixar de ter um pressentimento ruim.
— Pikapi... — concordou Pikachu,
que compartilhava da mesma preocupação. Logo em seguida, suas bochechas
voltaram a faiscar. Os trovões ainda interferiam em sua eletricidade.
— Pensar nisso não vai adiantar
nada, Ash. Acho melhor a gente voltar a correr. — disse Misty, levantando-se.
Ela soltou um suspiro.
Nunca imaginou que diria aquilo,
mas era inevitável. Queria chegar a um Pokémon Center e secar suas roupas o
mais rápido possível.
Os demais concordaram e retomaram
a marcha, avançando com cuidado para não escorregarem no terreno encharcado.
No entanto, após percorrerem mais
alguns metros, Pikachu sentiu algo.
Suas orelhas pontudas se ergueram
imediatamente em alerta máximo. E Ash foi o primeiro a perceber.
— Pikachu? — no instante em que
pronunciou o nome do parceiro, uma enorme esfera negra surgiu em meio à mata.
Ash reagiu por puro reflexo.
Protegendo o ovo sob sua jaqueta,
ele se jogou para o lado.
A esfera passou por ele e atingiu
o chão com violência, levantando terra e detritos para todos os lados.
— Ash! — Serena correu
imediatamente até o garoto, encontrando-o ainda atordoado pelo ataque
repentino. — Quem fez isso?
Brock e Misty também se
aproximaram rapidamente. E foi então que viram...
Diversos membros da Equipe Rocket
surgiam entre as árvores, avançando lentamente pela floresta. Cada um ocupava
uma posição diferente, fechando possíveis rotas de fuga.
Os faróis dos veículos iluminavam
os jovens, permitindo que os criminosos os observassem com clareza.
No centro da formação, Cassidy e
Butch se destacavam, ambos exibindo expressões de satisfação ao finalmente
encontrarem seu alvo.
— Surpresa. — zombou Cassidy,
erguendo o rastreador. A antena brilhava intensamente, apontada diretamente
para Pikachu.
— A... Equipe Rocket?! Mas...
como eles nos encontraram?! — Ash suava em descrença.
Seus amigos compartilhavam do
mesmo espanto.
— Tecnologia Rocket, queridinho.
— caçoou a loira, balançando o aparelho em sua mão como demonstração.
— Acho que já sabemos o resultado
disso! — declarou Butch, cruzando os braços. — Que tal entregarem o ovo e se
pouparem de passar pelo inferno, seus moleques?!
Para reforçar a ameaça, apoiou
uma das pernas sobre uma pedra e encarou o grupo de cima.
— Você não acha que só porque tá
mandando a gente vai entregar, né? — rebateu Misty com firmeza.
— É! — concordou Ash
imediatamente. — Quem vocês pensam que são?!
— Quem nós somos? Que pergunta
idiota. — Cassidy balançou uma das tranças com arrogância. — Não sabem com quem
estão lidando.
— Mas ficaremos felizes em
mostrar. — acrescentou Butch, posicionando-se ao lado da parceira.
— Lá vão eles de novo... —
cochichou um dos Rockets para o colega ao lado.
Os dois apenas suspiraram.
— Para infectar o mundo com
devastação. — prosseguiu Cassidy.
— Para apagar as pessoas das
nações. — continua Butch.
— Para denunciar a beleza do amor
e da verdade.
— Para estender nossa ira até às
estrelas.
— Sou Cassidy.
— E eu Butch.
— Somos a Equipe Rocket
circulando a Terra noite e dia.
— Rendam-se agora mesmo ou então
vão perder a luta.
— É isso mesmo. — finalizou
Cassidy.
— Ratte! / Prie! — Raticate e
Primeape surgiram logo em seguida, posicionando-se à frente da dupla com
olhares ameaçadores.
No entanto, a reação dos
Treinadores foi bem diferente do que a dupla Rocket esperava.
Eles os encaravam com expressões
julgadoras após aquela apresentação.
— O que foi isso? — Misty foi a
primeira a se manifestar.
— Isso me lembrou daqueles três,
Serena. Eles também faziam algo parecido. — comentou Ash, ainda olhando para os
Rockets como se fossem completos idiotas.
— Eu lembro. — concordou Serena.
A observação fez Cassidy e Butch
erguerem uma sobrancelha.
— “Aqueles três!”? Acho que eles
estão falando daqueles imbecis, Cassidy! — supôs Butch.
— É o que parece, Butch! —
concordou a loira. — Porém, eu não ousaria nos comparar dessa forma. Aqueles
três são a vergonha da Equipe Rocket e jamais poderiam se equiparar a nós.
Somos Rank B, e eles míseros Rank D.
— Pelo menos no lema eles sabiam
rimar. Mas vocês nem isso fazem. / Pikapi... — zombou Ash, sendo concordado por
Pikachu.
Uma veia saltou imediatamente nas
testas de Cassidy e Butch perante aquela afronta.
— É um lema provisório! É isso! —
vociferou Butch, já sem paciência para aquela conversa.
— Quer saber... Dane-se tudo
isso! Vocês vão entregar o ovo por bem ou por mal! — Cassidy deu um passo à
frente, claramente decidida.
— Quero ver vocês tentarem! —
Brock rebateu, sacando sua Poké Ball.
Os demais fizeram o mesmo.
Eles não sabiam como a Equipe
Rocket havia chegado até ali, muito menos o que havia acontecido com Riley, mas
não tinham tempo para pensar nisso agora.
Ash, porém, não demonstrava a
mesma confiança.
A lembrança de sua derrota
esmagadora no Monte Lua ainda estava fresca em sua mente. Se aqueles dois eram
apenas um rank abaixo dos Rockets que enfrentara naquela ocasião, então
certamente não seriam adversários fáceis.
Entretanto...
— Sabe... Já imaginei que vocês
diriam isso! — Cassidy sorriu. — Por isso, preparamos um cenário interessante.
Ela fez um simples sinal com a
cabeça, e os subordinados compreenderam imediatamente.
Poucos segundos depois, trouxeram
alguém para a frente da formação. Uma pessoa que os Treinadores conheciam muito
bem.
— Riley?! — exclamaram quase ao
mesmo tempo.
O Guardião estava preso por
correntes metálicas, sendo forçado a caminhar até parar ao lado dos
comandantes.
Mais atrás, Lucario também era
escoltado, igualmente contido e visivelmente desgastado pela batalha que
travara.
— “Um dispositivo que
identifica sinais eletromagnéticos... Nunca pensei nessa possibilidade.” —
Riley soltou um suspiro discreto.
Ao menos agora, entendia como
haviam sido encontrados.
Precisava admitir: a Equipe
Rocket era mais competente do que imaginara.
— E então? Já estão dispostos a
negociar? — Cassidy perguntou calmamente, sorrindo ao observar as reações dos
jovens.
— Soltem ele! / Pikaa!!! —
exigiram Ash e Pikachu, avançando um passo à frente.
— Não é assim que se negocia, meu
bem. — zombou a loira.
Logo em seguida, o Primeape de
Butch se aproximou de Riley.
O primata ergueu um dos punhos
envoltos por energia e o posicionou perigosamente próximo ao estômago do
Guardião.
A ameaça era clara.
— Espero que entendam a situação
em que estão. — rosnou Butch. — Façamos uma troca. Entreguem o ovo, e nós os
devolvemos são e salvo.
O silêncio que se seguiu foi
pesado.
Todos sabiam que aquela não era
uma proposta - era uma ameaça disfarçada de negociação.
Riley permanecia de olhos
fechados, como se estivesse apenas aguardando algo.
— Como... Como podemos confiar em
vocês? — Serena se manifestou. — Sabemos que são... traiçoeiros. — Sua voz não
carregava muita firmeza. Ela estava claramente receosa, o que pareceu
satisfazer os Rockets.
— Acho que você não tem muita
escolha agora. — Cassidy sorriu. — Tic tac, meus queridos. O tempo tá passando.
Nesse momento, um verdadeiro
impasse se formara.
Eles queriam salvar Riley, mas
também não podiam abandonar o dever que lhes fora confiado. A chuva continuava
caindo enquanto o vento carregava a tensão pelo ambiente.
— “Droga... O que fazemos?!”
— pensava Brock, cerrando os dentes em frustração. — “Se continuar assim...”
— “O Riley vai...” —
concluíram Misty e Serena, consecutivamente.
Ash em silêncio, apertava um dos
punhos, enquanto a outra mão segurava firmemente a incubadora protegida por sua
jaqueta.
O que eles fariam?
Todo aquele plano tinha ido por
água abaixo? Não podiam permitir que a Equipe Rocket vencesse. Não depois de
tudo aquilo.
Os segundos passaram, e nenhuma
resposta foi dada. A Equipe Rocket também não tinha pressa. Iriam saborear esse
momento.
Ash até cogitou a ideia de
aceitar, no entanto, o garoto percebeu algo - Riley havia aberto os olhos,
resoluto.
O Guardião o encarava com
seriedade, como se tudo ainda estivesse sob controle. Um leve sorriso surgiu no
rosto do Guardião em seguida.
Por algum motivo, aquilo fez o
palletiano se acalmar.
Mesmo sem entender a razão, Riley
parecia confiante, como se sua situação não representasse perigo algum.
— “Riley...” — pensou Ash.
Em seguida, soltou um longo
suspiro e então:
— Não!
A resposta surpreendeu não apenas
seus amigos, mas também os próprios Rockets.
— Peraí... Quê? — Butch inclinou
a cabeça em confusão. Será que tinha ouvido errado? Aquele garoto realmente
recusou? Mesmo naquela situação?
— Não vou permitir que vocês
levem nada! Certo, Pikachu? / Pikachu! — declarou Ash.
Seu parceiro saltou de seu ombro
e eletrificou as bochechas, desta vez se preparando para a batalha.
Mesmo conhecendo Riley há pouco
tempo, Ash confiava nele.
Se o Guardião não demonstrava
medo, então ele também não iria demonstrar.
— Mas Ash... — murmurou Serena.
Ele havia esquecido da situação
de Riley? A qualquer momento, a Equipe Rocket poderia...
— Acho que esse moleque bateu a
cabeça enquanto fugia da gente. — comentou Butch, franzindo o cenho.
— Acho que você tá certo. —
Cassidy suspirou, observando a situação com aparente tranquilidade. — Foi um
plano estúpido mesmo. Butch, faz o favor e peça pro Primeape acabar com ele.
Entretanto, antes que Butch
pudesse decretar o ultimato, Riley soltou uma breve risada, deixando todos
intrigados.
— Tá rindo do quê, oh palhaço?!
De desespero?! — esbravejou o esverdeado.
— Levou mais tempo do que pensei.
/ Rar... — foi tudo o que o Guardião respondeu, sendo acompanhado por seu
parceiro.
O que aconteceu em seguida foi
rápido demais.
Algo desceu dos céus em um
rasante veloz, atingindo um dos veículos da Equipe Rocket e o danificando,
ferindo alguns dos capangas em resultado.
— Mas que...?! — Cassidy mal teve
tempo de reagir.
Ela e Butch precisaram se abaixar
imediatamente para não serem atingidos.
Logo depois, a criatura alada
passou novamente pelo campo de batalha, desta vez raspando contra as amarras de
Riley e Lucario.
As correntes se partiram em
vários pedaços.
Aproveitando a oportunidade, o
Guardião e o chacal golpearam os Rockets mais próximos, forçando-os a recuar.
Sem perder tempo, ambos se
afastaram e voltaram para junto dos jovens Treinadores.
Ash e os demais observavam tudo
aquilo sem sequer tentar entender o que havia acabado de acontecer.
Há poucos segundos, Riley estava
sendo mantido como refém. Agora, ele estava ali, ao lado deles.
— O que acabou de acontecer? —
Butch se levantou, ajudando Cassidy a fazer o mesmo.
Quando finalmente se deram conta
da situação, perceberam a origem daquela reviravolta.
O ser alado havia pousado próximo
ao Guardião e encarava os Rockets com um sorriso selvagem.
Era um Pokémon incomum.
Seu corpo parecia ser
inteiramente feito de metal, uma armadura viva. A cabeça possuía um formato
peculiar, semelhante a um elmo pontudo, enquanto asas vermelhas se projetavam
de diversas placas metálicas.
— Skaaar!!!
— Bom trabalho, Skarmory!
Surpreendemos eles. / Rar! — disseram Riley e Lucario, virando-se para o
pássaro, que respondeu com um grito satisfeito.
— Riley... Mas quem é esse? — Ash
se aproximou devagar, ainda tentando processar tudo o que havia acabado de
acontecer.
— Conheçam o Skarmory! —
respondeu Riley. — Há alguns dias, mandei ele sobrevoar os arredores para
rastrear a Equipe Rocket enquanto fugíamos. Mas acho que a mudança de clima
confundiu a cabeça dele e o fez demorar para me encontrar. — concluiu, acariciando
levemente a ave metálica.
— Foi uma reviravolta e tanto,
mas nossos problemas não acabaram, pessoal! — Brock chamou a atenção para o que
realmente importava.
Todos voltaram seus olhares para
a Equipe Rocket.
Cassidy e Butch os encaravam com
expressões sérias, quase odiosas.
— Butch... Parece que teremos que
pegar realmente pesado dessa vez. — a loira estalou a língua, enquanto seu
Raticate se posicionava à frente dela.
— Tava esperando você dizer isso.
— sorriu o esverdeado, com Primeape já preparado para agir.
— Perfeito! Se nos unirmos,
então... — Misty começou a pegar sua Poké Ball. Porém...
— Não!
Uma única palavra foi suficiente
para interrompê-la.
— O quê?! Como assim?! —
questionou a ruiva.
— Não quero que vocês se metam
nessa batalha. Eu, Lucario e Skarmory iremos segurá-los, já que os números
deles diminuíram pelo ataque de agora. Vocês aproveitam para sair daqui. —
declarou Riley, sem demonstrar hesitação. — Logo adiante está a cidade de Vermillion.
Eles não seguirão vocês até lá. Isso se eles forem espertos.
Seu tom deixava claro que aquela
não era uma sugestão.
— Espera! Então você quer que a
gente deixe você sozinho de novo?! — Serena interveio.
— Quero.
— Mas nem pensar, Riley! — Ash
rebateu. — Podemos lutar contra eles!
— Não é essa a questão! —
exclamou o Guardião, fazendo todos se calarem. — Não lembra da promessa que
você me fez? Que protegeria esse ovo a todo custo? Além do mais, são dois ovos
que estão sob a responsabilidade de vocês. Se uma batalha de larga escala se
instaurar, há uma grande chance de serem danificados ou até destruídos. Isso
seria uma lástima. Não concordam?!
Riley manteve o olhar firme sobre
o palletiano - era um argumento difícil de contestar.
— Mas... eu... — o palletiano
tentou encontrar palavras para argumentar, mas nada surgia.
Foi então que Brock interveio.
— Ash...
O garoto foi pego de surpresa ao
ouvir seu nome e voltou o olhar para o amigo.
— Temos um dever. Você... tem um
dever. E deve honrá-lo.
Aquelas palavras pareceram
despertar algo nele.
Seu olhar alternou para Riley,
que continuava encarando os Rockets sem demonstrar qualquer temor.
Então, o Guardião de Aura virou
levemente a cabeça em sua direção.
Um pequeno e singelo sorriso
surgiu em seus lábios.
— Confio esse ovo a você, Ash. /
Rar...
Os olhos do moreno se
arregalaram. - era a primeira vez que Riley o chamava pelo nome.
A confiança que o homem
depositava nele era tão grande assim?
Como se respondesse àquelas
palavras, o ovo voltou a reagir. Um brilho azulado pulsou através da
incubadora, quase como se estivesse concordando com a decisão do Guardião.
Se antes havia algum impasse, ele
pareceu desaparecer por completo.
Decidido, Ash lançou um último
olhar para Riley.
Então, sem dizer mais nada, deu
meia-volta e correu junto de seus amigos.
— Ei!!! Onde pensam que vão?!!! —
esbravejou Butch. — Primeape, atrás deles!!!
— Mape!!! — o Pokémon disparou
para interceptar a fuga, sendo acompanhado por outros Pokémon dos subordinados.
Entretanto, Lucario surgiu em seu
caminho.
Com uma sequência veloz de socos
e chutes, o chacal atingiu o primata repetidas vezes antes de arremessá-lo de
volta para perto de Butch, que arregalou os olhos em surpresa.
Ao mesmo tempo, Skarmory avançou
sobre os demais Pokémon.
Com um único bater de asas,
repeliu todos eles, impedindo qualquer perseguição imediata.
Nesse momento, os jovens
desapareceram de vista, engolidos definitivamente pelo breu da floresta.
— Acho que não permiti que vocês
fossem atrás deles. — Riley sorriu. — Cassidy e... Buck, não é? Parece que
serei uma pedra no sapato de vocês por mais um tempo.
Lucario e Skarmory se
posicionaram ao seu lado.
Naquele instante, não apenas uma,
mas várias veias saltaram na testa de Butch. Seus dentes se cerraram enquanto a
raiva transbordava.
— MEU NOME É BUTCH, SEU
DESGRAÇADO!!!!!!
O grito ecoou pela mata.
E com ele, o confronto decisivo teve
início.
Por um breve momento, Riley
lançou um olhar na direção para onde aqueles jovens haviam partido.
Acreditava ter feito a decisão
correta – o ovo o escolhera, e isso era mais que o suficiente para fazê-lo
confiar.
Nesse momento, havia apenas um
desejo em sua mente.
Que tivessem uma boa viagem.
================================
Sem olhar para trás, os
Treinadores atravessaram os últimos arvoredos até finalmente deixarem a
floresta para trás.
Pela primeira vez desde o início
da fuga, viam sinais claros de civilização.
Postes, cercas e outras
construções simples surgiam ao longo do caminho.
Mais ao longe, já era possível
avistar o porto de Vermillion, seu próximo destino.
Ainda havia uma boa distância até
chegarem lá, mas naquela rota a Equipe Rocket não conseguiria alcançá-los.
— Ainda não acredito... Arf...
que abandonamos o Riley! — Serena ofegava. Nunca havia corrido tanto em sua
vida.
— Não havia o que ser feito,
Serena! Tínhamos... que respeitar a vontade dele. — Brock também demonstrava
sinais de exaustão.
— Arf... Eu só quero... Arf... um
Pokémon Center pra ontem! — reclamou Misty, apoiando as mãos nos joelhos
enquanto recuperava o fôlego.
Ash, porém, permanecia em
silêncio.
Seus pensamentos pareciam distantes.
E isso não passou despercebido por Serena.
— Ash... Tá tudo bem?
— Não sei, Serena... / Pika? —
respondeu o garoto, enquanto Pikachu demonstrava a mesma preocupação que a
caramelada.
Brock e Misty também foram
atraídos pela conversa, voltando a atenção para o moreno.
— Só não sei... o que fazer com
toda essa responsabilidade. — desabafou, observando o ovo que lhe fora
confiado. Era um peso que jamais imaginou carregar durante sua jornada. —
Sempre fui visto como alvo de chacota na Academia, então ter alguém depositando
tanta confiança em mim é um sentimento novo.
Ninguém o interrompeu.
Todos permaneceram em silêncio, o
permitindo colocar seus pensamentos para fora.
Enquanto isso, os primeiros raios
de sol começavam a atravessar as nuvens, banhando o grupo lentamente.
— Mas... eu acho que gosto dessa
sensação. Sinto que preciso proteger esse ovo a qualquer custo. — sorriu
enquanto continuava encarando o objeto em seus braços. — Se é uma promessa que
eu fiz, então vou fazer questão de cumprir!
Ao fazer essa declaração, Ash
percebeu uma mão delicada acariciando suavemente a incubadora.
Era Serena.
A kalosiana sorria calorosamente
para ele.
Misty e Brock também exibiam seus
próprios sorrisos ao observarem a cena.
— Ash... Não precisa se cobrar
tanto pra isso. Eu... te ajudarei com o que você precisar! Eu prometo!
O garoto se comoveu com aquelas
palavras tão sinceras da caramelada.
— E eu ainda tenho que te ensinar
como cuidar de um ovo Pokémon. — Misty mostrou a língua, aproximando-se da
dupla.
— Como um aspirante a Criador
Pokémon, posso compartilhar alguns conhecimentos também. — acrescentou Brock,
colocando uma mão sobre o ombro de Ash.
— Pessoal, eu... nem sei como
agradecer. — o garoto abriu um sorriso sincero.
Pela primeira vez em muito tempo,
sentia que pertencia a algum lugar.
Era um sentimento acolhedor.
E um que não estava disposto a
abandonar jamais.
— Então está decidido! Quando
chegarmos em Vermillion, vamos analisar os próximos passos, pessoal! — declarou
o jovem. — E é claro, vou obter também a minha próxima Insígnia!
A resposta veio imediata, com
todos concordando enquanto, acima deles, o céu limpo finalmente começava a se
abrir.
Avançando em direção à cidade,
nenhum dos quatro imaginava o que os aguardava naquela nova etapa da jornada.
Os dois últimos dias haviam sido
uma completa confusão, e tudo o que desejavam agora era um pouco de paz durante
sua estadia.
Enquanto os jovens desciam pela
rota, os raios do sol atravessavam as últimas nuvens que restavam da
tempestade.
E em meio à vegetação, uma única
flor branca permanecia erguida.
Uma simples gota de chuva
escorreu por suas pétalas, deslizando suavemente até molhar a grama abaixo.
Quando a tempestade passava, a calmaria ganhava força.

