quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Pokémon: TLD - Capítulo 16: A Força por Trás do Mar

Pokémon: TLD - Capítulo 16: A Força por Trás do Mar

A tensão ainda perdurava sobre o ambiente. Ash mantinha o olhar fixo no ponto onde Butterfree havia afundado, o choque estampado em seu rosto. O silêncio parecia pesar sobre o Ginásio - até que um pensamento o atravessou como um raio.

 

— Essa não! Butterfree vai se afogar! / Pika! — exclamou, a voz rugida pela urgência.

 

O feixe de luz da Poké Ball não o alcançaria debaixo d’água, e a única opção restante passava a ser a mais perigosa. Ash já se preparava para pular na piscina quando uma voz o deteve.

 

— Não se preocupe, Ash! — disse Misty, com uma serenidade quase desconcertante.

 

Logo em seguida, ela levou dois dedos à boca e assobiou, o som agudo ecoando pelo Ginásio. Parecia um chamado, um comando - uma conversa silenciosa com algo nas profundezas.

 

Ash levantou a sobrancelha, sem entender. Mas então, a superfície da água começou a borbulhar. Um instante depois, um Pokémon peixe de corpo branco e elegante saltou do fundo, trazendo no chifre de sua testa um Butterfree desacordado.

 

O Pokémon, com um impulso gracioso, lançou o tipo Inseto até os pés de Ash.

 

— Butterfree! — o garoto se ajoelhou de imediato, o rosto tomado por preocupação. Mas bastou um olhar para perceber: seu parceiro estava inconsciente.

 

— Butterfree já não pode continuar! Tentacool vence! — anunciou Deryl, para satisfação de Misty.

 

— Aquele Goldeen apareceu do nada. — comenta Brock, acompanhando com o olhar o Pokémon peixe voltar graciosamente a mergulhar.

 

— Goldeen? — repete Serena, já sacando a Pokédex.

 

GOLDEEN / 118 / Água: Seu chifre é poderoso o bastante para perfurar o casco de um barco. Nada com elegância e força, movendo sua cauda como se dançasse ao ritmo da correnteza.

 

— Mas afinal... o que aconteceu? — perguntou Serena, guardando o aparelho. Tudo tinha sido rápido demais. Era muita informação para absorver.

 

— Acho que sei o que rolou. — murmurou Brock, chamando a atenção da caramelada.

 

Ash, por outro lado, não entendia absolutamente nada. Primeiro, o movimento que deveria ter curado Butterfree acabou por derrotá-lo. E depois, aquele Goldeen havia surgido do nada. Sua mente fervia em busca de respostas.

 

— Misty... — o garoto começa, ainda tentando compreender o que vira. — Pode me dizer o que aconteceu?

 

A ruiva, porém, limita-se a um sorriso irônico.

 

— Se você me derrotar, eu te conto tudo. — responde, num tom quase provocativo. — Só tenha em mente que você foi completamente tapeado por mim, Ash. — completa, cruzando os braços com um ar de quem se divertia com a própria astúcia. Suas irmãs trocam olhares confusos, igualmente alheias à explicação, o que apenas tornava a situação mais saborosa para a ruiva.

 

— Brock, se você sabe o que aconteceu, pode explicar? — pergunta Serena, esperançosa, mas o rapaz apenas balança a cabeça.

 

— Se a Misty não quer revelar agora, eu, como ex-Líder de Ginásio, não acho justo me intrometer. — diz, sereno. — Ela mesma vai contar no momento certo. — encerra o assunto com um leve sorriso.

 

Serena suspira, frustrada com todo aquele mistério, mas ainda havia algo que não saía de sua cabeça.

 

— E aquele Goldeen aparecendo do nada... também é segredo? — pergunta, um pouco envergonhada por elevar a voz em meio à imensidão do Ginásio.

 

— Ah, isso não é importante! — respondeu Misty, descontraída. — Eu só a deixei na piscina antes de vocês chegarem, pra ajudar a retirar os Pokémon do Ash caso desmaiassem na água. — seu tom era de puro orgulho, a confiança transbordando em cada palavra.

 

Ash fecha os olhos por um instante, tentando acalmar o turbilhão de pensamentos. Não adiantava insistir - Misty não revelaria nada agora. Mas o que mais o incomodava era perceber que vinha agindo exatamente como ela queria, passo a passo dentro de uma armadilha montada desde o início. Mas se a ruiva pretendia desestabilizá-lo, não teria sucesso.

 

Ele respira fundo e abre os olhos, a determinação queimando no olhar. Mesmo diante daquela situação, o kantoniano não evitava de ficar empolgado. Estar de frente a uma oponente tão formidável, somente dava gás para o rapaz superar seus próprios limites. A incerteza já não importava tanto. O que valia agora era superá-la. Sentia, no fundo, que sair daquela batalha vitorioso o faria evoluir de verdade.

 

— Butterfree, retorne. — diz com firmeza, chamando o parceiro de volta. — Você fez o melhor que pôde, amigo.

 

Ash se ergue, ajeitando o boné com um gesto decidido: precisava recuperar o foco.

 

— Se você não vai me contar, então não vou insistir. — diz com um sorriso compreensivo. — Eu só preciso derrotar você, então não vou me preocupar muito. Afinal, isso vai acontecer, com certeza!

 

O tom confiante do garoto surpreende Misty. Mesmo após a derrota repentina de seu Pokémon, Ash parecia mais determinado do que nunca. Aquilo desperta nela um sorriso animado - era exatamente esse tipo de espírito que ela queria ver em um desafiante.

 

— Então venha e me mostre o que sabe fazer! — provoca, empolgada. Depois de todo o estresse com suas irmãs, era libertador simplesmente se divertir em uma batalha Pokémon.

 

Serena observa a cena com um sorriso discreto. Ver Ash assim - vibrante, seguro, com o olhar aceso pela disputa - aquecia algo dentro dela. Era o mesmo garoto que ela sempre admirara, finalmente de volta após o peso do confronto contra Bleuross e Rosavia.

 

— Pidgeotto, eu escolho você! / Pidgeoo!!! — Ash lança a Poké Ball, e o pássaro surge em voo, abrindo as asas sobre a piscina com elegância.

 

— Mais um Pokémon que voa? Seu time precisa de mais criatividade, Ash. — brinca Misty, cruzando os braços.

 

— Não me enche! — retruca o garoto, sem perder o sorriso. — Meu time está do jeito que tem que estar. — desta vez, ele viraria o jogo.

 

— Muito bem... retomem a batalha! — anuncia Deryl, erguendo o braço.

 

Ash não hesita nem por um instante.

 

— Avance com Quick Attack! / Geooot!! — o comando ecoa, e Pidgeotto mergulha em rasante, uma flecha viva mirando o Tentacool.

 

— Mergulhe. — ordena Misty, com um leve sorriso.

 

O Pokémon aquático afunda em um instante, desaparecendo nas águas claras. Pidgeotto passa direto, cortando apenas o vazio e levantando respingos no impacto do vento.

 

— Não vai ficar escondido por muito tempo! — retruca Ash. — Pidgeotto, sacuda essa água com Gust, força máxima!

 

As asas do pássaro se abrem, batendo com máxima potência. O ar se comprime e desaba sobre a piscina em redemoinhos violentos, fazendo a superfície estremecer. Ondas irregulares se formam, empurrando Tentacool para cima.

 

— Boa! — elogia Brock, impressionado. — Como Pidgeotto é do tipo Voador, o Gust dele tem ainda mais pressão que o do Butterfree. Conseguiu afetar o Tentacool mesmo debaixo d’água.

 

— Agora tira esse Tentacool da água! — Ash sorri. — se fizesse como fizera com Shellder, talvez ele tenha alguma chance, no entanto, Misty apenas sorri, o que desconcerta o garoto.

 

— Estique os tentáculos, Tentacool.

 

A criatura obedece de imediato. Seus tentáculos se expandem com precisão e se entrelaçam, criando uma estrutura circular que o mantém firme sobre a superfície - como se ancorasse o próprio corpo à água. O vento continua rugindo, mas ele não se move nem um centímetro.

 

— O quê?! / Chaa?!! — Ash e Pikachu exclamam em uníssono, atordoados.

 

— Muito inteligente... — comenta Brock, cruzando os braços. — Ele usou os tentáculos como uma âncora pra se estabilizar.

 

Agora, com as irmãs da ruiva.

 

— Caramba! A Misty tá realmente botando pra quebrar, né! — Lily abriu um largo sorriso, verdadeiramente empolgada com o que via.

 

— De fato! — respondeu Violet. — Se me contassem, eu nunca acreditaria que era a Misty batalhando.

 

— Realmente... — completou Daisy. — Essa batalha tá bem mais divertida de assistir do que eu imaginava.

 

Os olhos das três permaneciam fixos no campo de batalha. Misty demonstrava ter total controle da situação - um contraste gritante com a garota chorona e sem talento que um dia fora, e que muitos ainda acreditavam que continuava sendo.

 

— Agora é nossa vez de partir para a ofensiva! — anunciou Misty, retomando a batalha. — Water Pulse!

 

— Cooool! — o tipo Água disparou o pulso aquático, fazendo ondas se chocarem contra as bordas da piscina.

 

— Evasiva! — ordenou rapidamente Ash. Pidgeotto subiu com maestria, desviando do ataque com sucesso. — Agora, Steel Wing!

 

— Pidgeoo!!! — o pássaro metalizou as asas e desceu em um rasante veloz, colidindo contra Tentacool com força dobrada pela queda. A água-viva foi violentamente lançada para fora da água, arrancando um sorriso de satisfação de Ash, com Misty parecendo se surpreender por um breve momento - não tivera nem tempo de mandar seu Pokémon mergulhar.

 

— Isso! — comemorou Ash. — Steel Wing, mais uma vez!

 

Dando meia-volta, Pidgeotto preparou-se para colidir novamente com Tentacool, que aparentava estar vulnerável fora da água - mas Misty já esperava por isso.

 

— Use Toxic! — sorriu, notando a oportunidade perfeita.

 

Tentacool foi rápido em executar o movimento. Quando Pidgeotto se aproximou, já não havia espaço para desviar - o veneno foi disparado em cheio, atingindo o pássaro no instante em que ele o atropelava.

 

Pidgeotto recuou no ar, com a respiração pesada e a face levemente arroxeada - sinais claros de envenenamento.

 

— De novo não! / Pika! — exclamaram Ash e Pikachu, aflitos. O estado de seu Pokémon estava longe de ser bom.

 

— Nossa! A Misty pegou de jeito aquele Pidgeotto. — comenta Lily, de olhos arregalados.

 

— Agora ele tá com os minutos contados. — completa Daisy, sem desviar o olhar.

 

Mas quem demonstrava verdadeira preocupação era outra pessoa.

 

— O Pidgeotto também foi envenenado! — exclama Serena, aflita ao ver o pássaro vacilar no ar.

 

— O Ash precisa pensar em algo, e rápido. — diz Brock, analisando a situação. Usar a aproximação do adversário para aplicar um Toxic perfeito… Misty mostrava uma sagacidade que só o deixava mais impressionado, embora não surpreso.

 

— Pidgeotto, eu sei que você consegue! — Ash o incentiva, a voz firme mesmo diante do risco. — Pra cima dele com Steel Wing!

 

— Geoo...! — apesar do veneno que corroía seu corpo, Pidgeotto reúne forças, metalizando as asas e partindo em velocidade máxima contra Tentacool.

 

Mas Misty apenas exibe um sorriso contido, o que deixa Ash em alerta.

 

— Mergulhe e use Constrict. — ordena, tranquila.

 

— Cool! — Tentacool mergulha no exato instante em que Pidgeotto desceria em rasante, fazendo o golpe passar por cima de onde a água-viva estava.

 

Por um breve momento, tudo parece desacelerar para Pidgeotto. O som da água, o eco distante das vozes - e então, os tentáculos de Tentacool emergem bem na frente do pássaro, prontos para o ataque.

 

— Geoo?! — mal tem tempo de reagir quando é enlaçado violentamente, os tentáculos o prendendo sem piedade. — GEOOOO!!!

 

— Não!!! / Pika!!! — Ash e Pikachu exclamam em descrença.

 

— Agora puxe ele pra água. — sentencia Misty, com uma frieza controlada.

 

Tentacool obedece, arrastando o pássaro para dentro da piscina, onde a superfície logo se fecha sobre o tipo Voador.

 

As águas da piscina ondulam por um instante após o mergulho forçado de Pidgeotto. Depois, o silêncio se instaura.

 

— Agora ferrou de vez. — quebrando a quietude, Brock murmura, tenso. Serena, por outro lado, aperta as mãos junto ao peito, incapaz de tirar os olhos da água.

 

— E agora...? — pergunta, quase em um sussurro. A sensação era clara: Misty estava ditando o ritmo da luta, e ninguém ali podia negar isso. Ela tinha total controle sobre o ambiente, e era isso o que a tornava tão perigosa

 

Ash se aproxima da borda, inquieto.

 

— Pidgeotto… / Pika… — Ash olha para a superfície, igualmente aflito. No fundo, ainda tinha esperanças de que seu Pokémon levantaria voo e escaparia da água.

 

Mas não tinha nenhum movimento vindo do fundo. Só a água voltando ao seu estado calmo, o que tornava tudo ainda mais angustiante.

 

Misty, por sua vez, verifica o relógio em seu pulso com a tranquilidade de quem já sabia o tempo exato da manobra. Assim que marca o ponto que esperava, ergue o olhar.

 

— Certo, Tentacool. Pode subir com o Pidgeotto.

 

Tentacool rompe a superfície devagar, seus tentáculos trazendo o pássaro totalmente imóvel. A água escorre de Pidgeotto como se todo o peso do mundo estivesse preso às suas asas.

 

Com um gesto simples, Tentacool o lança para fora da piscina, contrariando Goldeen, que estava mais no fundo. A Pokémon peixe esperava ter que fazer esse trabalho. Mas quem sabe na próxima.

 

O corpo lançado de Pidgeotto cai aos pés de Ash, deslizando no chão molhado antes de parar, permanecendo imóvel.

 

Já não restavam dúvidas.

 

— Pidgeotto está fora de combate! Tentacool venceu! — anuncia Deryl, com um orgulho que não tenta esconder. Ver até onde sua pupila chegara - e as expressões estupefatas das irmãs dela - era quase reconfortante. Talvez, enfim, passassem a tratá-la com o respeito que merecia.

 

— Caramba… mais um Pokémon afogado. — Lily murmura, suando levemente diante da letalidade daquele Tentacool. — Tô até arrepiada.

 

— Pois é… — concorda Violet, soltando um suspiro longo. — Acho que nunca vi uma batalha tão intensa assim.

 

“Realmente… aquele Tentacool é mais assustador do que eu lembrava.” — pensa Daisy, observando a água-viva quase sem um arranhão, um sorriso nervoso pendendo nos lábios.

 

— Que droga… O Pidgeotto também. — lamenta Serena. Ver Ash naquela desvantagem a deixava inquieta - não sabia o que faria se estivesse no lugar dele.

 

— Era inevitável depois que Tentacool puxou o Pidgeotto pro fundo. — Brock admite. — O envenenamento também só piorou tudo.

 

Ash permanece quieto, absorvendo tudo o que se passara. A pressão se acumulava nos ombros - e era impossível não pensar em Gary. “Se ele estivesse vendo isso… quantas piadinhas eu já teria ouvido?” O peso dessa ideia o incomoda mais do que gostaria. Precisava provar ao Oak que era um Treinador de verdade. Que era digno. Que todas a humilhações que sofrera no passado não passavam de apenas falácias sem sentido.

 

— Pidgeotto, volta. — diz, num tom baixo, trazendo o parceiro de volta para a Poké Ball. A aba do boné esconde seus olhos. — Você foi incrível, amigo. Agora descanse.

 

Ele ainda permanece preso nos próprios pensamentos, e Serena o observa com preocupação silenciosa. Misty, notando que ele não se movia, decide cutucar.

 

— O que houve, Ash? Tá pensando em desistir? — sorri. Não era deboche, era um desafio. Ela queria ver até onde ele iria - e estava disposta a usar tudo o que aprendera até ali para empurrá-lo ao limite.

 

Ash franze o cenho por um instante, sentindo o peso das palavras de Misty… mas não por muito tempo. A frustração ainda estava lá, latejando, porém não tinha mais espaço para pensar dessa forma.

 

— Pikapi… — Pikachu se aproxima com preocupação no olhar, tentando verificar se seu Treinador estava bem.

 

Ash respira fundo e sorri para o parceiro, um sorriso simples, mas reconfortante.

 

— Tá tudo bem, Pikachu. A gente ainda vencer. Confie em mim. — declara. Com essa fala, Pikachu abre um sorriso cheio de confiança, como se aquele único gesto bastasse.

 

O garoto então encara Misty. O olhar aceso, sem mais qualquer sombra de hesitação.

 

— Eu, desistir? Quem você pensa que eu sou, Misty? — provoca, num tom leve, mas carregado de convicção. — Se eu fosse desistir agora… então por que eu teria saído de casa, em primeiro lugar? Era só ter ficado deitado na cama, sonhando com um objetivo que eu nunca ia alcançar. Não concorda que isso sim seria patético?

 

Ninguém o interrompe. Nem Serena, nem Brock, nem as irmãs de Misty. Nem a própria ruiva, que apenas o observa, um tanto surpresa. No fim de tudo, ele merecia desabafar.

 

— Uns dias atrás, eu passei por uma situação bem chata… daquelas que fazem você duvidar de si mesmo. Duvidar de sua própria capacidade. — continua Ash. — Só que ficar preso nos fracassos só me tornaria o perdedor que dizem que eu sou. E eu não vou aceitar isso.

 

A postura dele muda - ombros erguidos, voz firme, dedo apontado direto para Misty.

 

— Por isso… eu vou te derrotar, Misty! — declara, sem vacilar. — E vou sair por aquela porta com a Insígnia na mão! Tenha certeza disso!

 

O silêncio que segue não é mais tenso - é elétrico. Era como se a batalha tivesse sido acesa novamente, dessa vez por ele.

 

Serena leva uma das mãos ao peito, sentindo a emoção apertar de um jeito bom.

 

“Ash…” — pensa, sorrindo com aquele brilho úmido nos olhos. Ele não estava quebrado, nem abalado… estava ainda mais firme. O tipo de firmeza que ela sempre viu nele.

 

— Parece que não vou me arrepender de ter saído em jornada com vocês. — Brock comenta, cruzando os braços com um sorriso satisfeito. A fala dele faz Serena lhe lançar um olhar rápido. — Ash, de fato, vai até o fim pelo que acredita. Respeito isso.

 

— Sim! — Serena confirma, quase radiante, voltando seu olhar para o campo de batalha — Ele é assim mesmo!

 

De volta ao confronto…

 

— Você parece bem confiante, Ash. — provoca Misty, inclinando de leve a cabeça, um sorriso desafiador nos lábios. — Mas será que consegue sustentar isso?

 

— Espera e verá! — Ash devolve no mesmo tom, sem perder o sorriso. Depois, ergue o olhar até onde Serena está sentada.

 

A caramelada se sobressalta um pouco com o olhar repentino, ruborizando de imediato - mas não desvia. Não consegue.

 

E Ash, por um instante, deixa a batalha de lado para pensar claramente:

 

“Serena… eu sei que te decepcionei no Monte Lua, mesmo que você não ache isso.” — Ele sorri para ela, um sorriso pequeno, sincero, que a deixa ainda mais corada. — “E o pior disso tudo… foi eu não ter seguido meu próprio mantra. Coisa que você fez sem hesitar.”

 

Ele volta a encarar Misty, firme, com a decisão tomada.

 

“Mas dessa vez vai ser diferente. Eu vou te mostrar que sou digno de ter você ao meu lado… eu prometo.”

 

Só então ele olha para Pikachu - e o rato elétrico entende na hora. Em seguida, os dois trocam um aceno rápido, em uma comunicação silenciosa.

 

— É com você, amigão! / Pika!

 

Pikachu salta ágil para uma das plataformas da piscina, pousando com leveza antes de assumir a postura de combate, o olhar firme, chamas de determinação combinando com as do treinador.

 

— Agora a Misty tem que se cuidar. Vai ter que lidar com um tipo Elétrico dessa vez. — comenta Violet, cruzando os braços enquanto acompanha cada movimento no campo.

 

— É mesmo! — Lily arregala os olhos, como se tivesse acabado de lembrar de algo óbvio. — Aquáticos são fracos contra Elétricos!

 

— Bom… o Deryl e a mamãe sempre dizem que tipagem não é tudo. — pondera Daisy, levando um dedo ao queixo. — E olhando pra Misty… acho que ela não parece muito preocupada com isso.

 

No campo, a ruiva sorri de canto, como quem alerta e provoca ao mesmo tempo:

 

— Ash… espero que você não fique confiante demais só porque trouxe um tipo Elétrico.

 

— Eu não seria capaz disso, Misty! — ele retruca com a mesma energia, sem perder o sorriso determinado.

 

— Muito bem! Vamos retomar a batalha! — anuncia Deryl. Não havia motivo para prolongar essa pausa mais que o necessário.

 

— Se não se importar, Ash, começarei dessa vez. — decide Misty, erguendo o punho. — Tentacool, atire seu Acid!

 

— Cool! — a água-viva reúne uma secreção espessa e esverdeada utilizando a própria saliva e a lança em direção a Pikachu. Mas o ratinho estava alerta.

 

— Evasiva, Pikachu! / Pika! — o tipo Elétrico salta para outra plataforma, desviando com sucesso. No entanto, a permeabilidade do objeto flutuante faz com que o jato corrosivo seja desviado para a água, que se diluíra de imediato. Ash se surpreende com aquela tecnologia – Misty se preparou até para isso?

 

— Não vai fugir! Continue, Tentacool! / Tenta!!! — a ruiva incentiva.

 

Tentacool continua cuspindo Acid em sequência, tentando pegar Pikachu desprevenido. Mas o tipo Elétrico se move com leveza, usando as plataformas como degraus seguros, mantendo o equilíbrio impecável.

 

“Não podemos só ficar na defensiva…” — pensa Ash, cerrando os dentes. — Pikachu, Thunder Shock!

 

— PiiikaaaCHUUUU!!! — Pikachu eletrifica suas bochechas, soltando uma potente descarga que avança implacavelmente.

 

— Mergulhe! — Misty é rápida no comando.

 

Tentacool submerge no instante certo, e a eletricidade atinge apenas a superfície da piscina. O tipo Água estava totalmente protegido.

 

Entretanto…

 

— Sabia que faria isso! — Ash sorri, intrigando a ruiva.

 

— Vá atrás dele, Pikachu! / Pikapi! — e o roedor exibe um sorriso confiante, já entendendo exatamente o que seu treinador pretendia.

 

Assim, Pikachu mergulha sem hesitar, atravessando a superfície da piscina em um único salto - decidido a não deixar Tentacool escapar de vista.

 

— O quê?! — Misty arregala os olhos, totalmente pega de surpresa. Não esperava algo tão direto… e tão arriscado.

 

— Mas assim o Pikachu fica em desvantagem contra um Pokémon aquático! Esse moleque enlouqueceu?! — Daisy quase se levanta, tentando entender o que se passava na cabeça daquele garoto.

 

— Serena, o que você acha? — Brock pergunta, igualmente intrigado.

 

— O Ash, com certeza, sabe o que tá fazendo. — Serena responde sem nem pensar, convicta como se enxergasse a lógica por trás do caos.

 

E, de fato, ela estava certa.

 

— Agora, Pikachu! Thunder Shock!

 

— PiiikaaaaCHUUUUUUU!!!! — mesmo submerso, Pikachu concentra sua eletricidade e a libera de uma só vez.

 

Por conta da condutividade, a corrente se espalha por toda a água num instante, correndo pela piscina inteira como uma teia luminosa, afetano tanto o fundo quanto a superfície. O clarão ilumina o campo de batalha, com a luz refletindo nos rostos surpresos daqueles que assistiam - e Misty, atônita, vê seu campo virar contra ela de forma que jamais imaginara.

 

Após o impacto, impulsionado pelas ondas que o ataque de Pikachu provocara, Tentacool é lançado para fora da água aterrissando sobre uma das plataformas, o corpo ainda trêmulo e completamente chamuscado. Pikachu emerge logo depois, agarrando-se à borda da piscina para se impulsionar de volta ao campo – no entanto, percebe os tentáculos de Tentacool se mexendo levemente – ele ainda estava consciente.

 

— Ele é mais resistente do que imaginei. — comenta Ash, genuinamente surpreso com a capacidade da água-viva de resistir àquele ataque, mesmo sendo super eficaz. Na arquibancada, Brock não se espantava tanto: pelo pouco que conhecia da ruiva, imaginava que ela treinara a resistência daquele Tentacool incansavelmente. Supor isso parecia bastante plausível.

 

— Tentacool, você tá bem?!


— Cool... — o Pokémon responde, fraco, mas firme - não cairia tão facilmente.

 

— Ainda não acabamos, Misty! Thunder Shock mais uma vez!

 

— CHUUUUUU!!!! — Pikachu concentra outra descarga, disparando-a com força máxima, mas Misty reage no mesmo instante, tentando sua última cartada – dificilmente seu Pokémon aguentaria outro ataque daqueles.

 

— Use o Acid nos tentáculos e use Constrict repetidamente!

 

— TentaaaCOOOL!!! — molhando os tentáculos com seu veneno espesso, o tipo Água os balança com rapidez. O Acid forma uma segunda camada sobre eles, criando uma barreira improvisada que intercepta o avanço do Thunder Shock, espalhando parte da eletricidade em faíscas inofensivas ao redor.

 

— Ela improvisou um tipo de escudo! — Brock exclama, tão surpreso quanto o restante da plateia – aquela garota realmente não parava de surpreender.

 

— Não vai acabar assim! Continue, Pikachu! / CHUUUUU!!! — Ash insiste, e Pikachu responde fortalecendo sua eletricidade, determinado a romper aquela defesa viscosa.

 

— Não pare! — retruca Misty, firme, enquanto Tentacool mantém os tentáculos em movimento constante. Mas, naquela disputa de força e persistência, o desgaste cobrava seu preço - a água-viva começava a perder terreno, centímetro por centímetro.

 

Então, após mais alguns segundos de tensão acumulada, a eletricidade enfim atravessa a camada de veneno e atinge a cabeça de Tentacool, provocando uma pequena explosão.

 

O impacto, embora em um tamanho honesto, produz claridade e vento o bastante para obrigar Ash e Misty a erguerem os braços, tentando enxergar através da luz que os envolve por breves instantes.

 

Quando o brilho finalmente se dissipa, o resultado fica claro: Tentacool boia, totalmente grogue, enquanto Pikachu já se encontra de pé em uma plataforma próxima, respirando firme. Deryl, então, não demora a oficializar:

 

— Tentacool está fora de combate! Pikachu venceu!

 

— É isso aí! / Pikapi! — Ash e Pikachu comemoram juntos; agora estavam empatados. Bastava mais um Pokémon, e a segunda Insígnia seria dele.

 

— Pikachu conseguiu! — Serena aplaude, radiante. — Agora só falta mais um, aí o Ash vence!

 

— Pode até ser, mas você já sabe quem ela vai escolher agora, Serena. — Brock pondera, mais atento à situação. A caramelada se dá conta na hora.

 

— É verdade... Ela vai enviar o...

 

— Tentacool, retorne! — Misty recolhe seu Pokémon após um suspiro suave. — Você me deixou orgulhosa. Obrigada.

 

— Agora estamos de igual pra igual, Misty! — Ash provoca, sorrindo. A ruiva devolve o olhar, mas com um sorriso mais enigmático.

 

— Acho que você tá enganado, Ash. — ela rebate, fazendo o garoto franzir a sobrancelha. — No campo aquático, eu sempre tô a um passo na frente.

 

Com essa afirmação, Misty ergue sua terceira e última Poké Ball.

 

— Aquele Pikachu realmente me surpreendeu. Como um Pokémon tão pequeno pode ser tão forte? — Violet comenta, legitimamente surpresa, recebendo um aceno rápido de Lily.

 

— Mas agora a Misty vai enviar ele. Será que esse Pikachu vai ter tanta sorte dessa vez? — quem fala agora é Daisy, mais consciente que as irmãs da força do próximo Pokémon da ruiva.

 

E a mesma não hesita mais.

 

— Misty chama Starmie! — com um giro gracioso, ela arremessa a Poké Ball. Em meio ao brilho da liberação, surge o familiar Pokémon estrela de dez pontas, que pousa em uma das plataformas.

 

Ash e Pikachu endurecem o olhar. Já esperavam enfrentar Starmie - e sabiam que, a partir daquele momento, qualquer vacilo seria fatídico de derrota.

 

— Vamos ver como você se sai contra o meu maior ás, Ash. — declara Misty, com a confiança de quem conhece bem o poder que está trazendo à luta.

 

Por alguns segundos, Ash avalia a situação, tentando decidir a melhor forma de iniciar o ataque. Não conhecia totalmente o potencial de Starmie, mas tinha uma noção baseada no que vira no Monte Lua. Ainda assim, sabia que pensar demais poderia ser um erro fatal - teria de arriscar.

 

“Sendo assim, começarei de leve.” — conclui mentalmente. — Pikachu, use Quick Attack!

 

— Pika! — o rato elétrico dispara em frente, ziguezagueando pelas plataformas com uma agilidade invejável. Cada salto seu provoca um leve balanço na superfície da água.

 

— Pare o Pikachu com Hydro Pump! — ordena Misty.

 

Starmie responde de imediato: seu cristal central brilha, acumulando uma massa de água comprimida, e então um jato poderoso é lançado como um verdadeiro canhão. A pressão corta o ar com força, mas Pikachu vai se esquivando enquanto avança, desviando em movimentos precisos, ainda ganhando terreno com cada impulso.

 

— Agora use Iron Tail! — ao ver Pikachu suficientemente perto, Ash não hesita. O rato elétrico gira o corpo e lança a cauda metálica em um arco preciso… mas Misty já tinha previsto isso.

 

— Mergulhe em evasiva!

 

Starmie se lança da plataforma direto para a água, desaparecendo sob a superfície. A cauda de Pikachu acerta apenas o vazio.

 

— Agora use Rapid Spin! — a ruiva sorri, confiante.

 

A estrela emerge logo em seguida, girando em alta velocidade, seu corpo rodopiando como uma lâmina viva.

 

— Pikachu, atrás de você! — Ash tenta reagir, mas seu aviso chega um segundo tarde demais. Quando o roedor se vira, Starmie já está em cima dele, atropelando-o com força e lançando-o direto para a água. — Pikachu! — Ash se inclina instintivamente para a frente, tenso.

 

— Isso, com certeza, não é bom...! De novo! — Brock comenta, sentindo o suor escorrer pela têmpora.

 

— Pikachu, volte para a plataforma logo! — Ash tenta instruir, entretanto…

 

— Mas não mesmo, Ash! — retruca Misty, com um sorriso ardiloso. — Starmie, use o Rapid Spin e tire todas essas plataformas da piscina!

 

Antes que Ash sequer pensasse em reagir, Starmie já começava a girar novamente, cortando a água como uma hélice viva. A estrela percorre toda a piscina em trajetórias rápidas e precisas, atingindo plataforma após plataforma. Cada impacto gera um estalo seco, e os flutuadores são arremessados para fora do campo, um por um, até que nenhum restasse.

 

De repente, Pikachu se vê sozinho, nadando no meio da piscina sem qualquer ponto de apoio - completamente exposto. Ash observa tudo imóvel, atônito, o cérebro trabalhando rápido demais e, ao mesmo tempo, sem conseguir encontrar uma resposta imediata.

 

Nas arquibancadas…

 

— Mas isso é permitido?! — Serena arregala os olhos, indignada. Aquilo simplesmente não lhe parecia justo.

 

— Líderes de Ginásio têm passe livre pra usar qualquer artifício que acharem necessário pra testar o desafiante. Então… não tá fora das regras. — Brock explica, embora parecesse tão surpreso quanto ela. — Mesmo que… bom, sejam táticas um tanto incomuns. — não era estranho ele tecer esse comentário, visto que jamais imaginaria Misty indo tão longe - retirar todas as plataformas, justamente o recurso que equilibrava o campo para auxiliar os desafiantes, era uma jogada esperta, mas controversa.

 

“Eu não esperava ficar nessa situação. Pikachu agora tá em total desvantagem na água.” — Ash pensa, mordendo levemente o lábio. Seu parceiro teria de nadar o mais rápido que conseguisse; qualquer erro, e estaria completamente à mercê de Starmie.

 

— Espero que esteja preparado, Ash. Porque eu tô só começando. — avisa Misty, com firmeza. — Starmie, Hydro Pump!

 

A estrela submerge quase por completo, deixando apenas a parte superior visível enquanto concentra pressão no cristal central. Um instante depois, o jato de água é liberado com força brutal, cortando a superfície direto em direção a Pikachu.

 

— Pikachu, nade em evasiva, vai! / Pika! — Ash reage na mesma batida do ataque.

 

O ratinho mergulha parcialmente, usando a cauda como impulso, e se desloca para o lado com uma agilidade surpreendente para alguém naquela situação.

 

— Nossa… esse Pikachu até que nada bem. — Lily comenta, surpresa e admirada ao mesmo tempo.

 

— Lembro que o Deryl comentou uma vez sobre as espécies terrestres que nadam melhor… e Pikachu estava na lista. — diz Violet, quase orgulhosa por finalmente ter uma informação útil no momento certo – quem diria que as aulas de Deryl lhe seriam valiosas.

 

De volta à piscina...

 

— Pikachu, não podemos ficar só na defensiva! Vamos estrear seu novo movimento. / Pika! — declara Ash, recebendo a confirmação determinada de seu parceiro. Então ele ergue a voz: — Use o Double Team!

 

Pikachu salta para fora da água, e vários clones surgem ao redor dele, espalhando-se pelo campo aquático em um ataque coordenado. De todos os ângulos possíveis, réplicas idênticas do rato elétrico avançam sobre Starmie - era um cerco perfeito.

 

Mas Misty nem pisca.

 

— Starmie, gire e use o Hydro Pump.

 

A estrela aquática então começa a girar horizontalmente - não como um Rapid Spin, mas um giro firme e controlado. Do cristal no centro, uma torrente de água é disparada para cima, abrindo-se como um leque imprevisível. A plateia prende o fôlego ao ver mais um movimento nada convencional.

 

Graças ao giro, o golpe se espalha em múltiplas direções. Antes que qualquer um dos clones chegasse mais perto, a rajada atinge todos eles de forma caótica, desfazendo cada imagem num borrão. O Pikachu verdadeiro é pego pelo fluxo principal e arremessado para cima sem qualquer chance de evitar.

 

— Essa não, Pikachu! — Ash exclama, sentindo sua estratégia ruir diante de seus olhos.

 

Logo após isso, Pikachu atingiu a água com força e, num instante, afundou.

 

— Pikachu! — Serena levantou-se na arquibancada, o coração disparado. Já eram infortúnios demais para o seu amado nessa batalha, e ela detestava cada segundo disso.

 

— Aquele movimento da Starmie foi incrível… — Brock analisava, embora a expressão dele também demonstrasse preocupação. — Um tipo de escudo de água muito bem aplicado. E pensar que o TM de Double Team que compramos não serviu de nada…

 

Serena manteve os olhos presos ao ponto onde Pikachu havia desaparecido.

 

— Você acha que ela improvisou isso, Brock? Ou planejou tudo desde o começo?

 

— Difícil dizer! — Brock respondeu, pensativo. — Ela pode ter imaginado que uma situação assim poderia acontecer e se preparado. Ou, no calor do momento, avaliou as habilidades da Starmie e percebeu que essas táticas improvisadas funcionariam. De ex-Líder para Líder, as duas coisas são totalmente possíveis.

 

As palavras dele fizeram Serena refletir. Ser Treinador parecia muito mais complexo e exigente do que ela imaginava. E, paradoxalmente, quanto mais descobria sobre esse mundo… mais fascinada ela se sentia por ele.

 

— Parece que minha vitória já é bem óbvia. Não acha, Ash? — provoca Misty, certa de que o controle da batalha já estava todo em suas mãos.

 

Ash cerra os punhos, tentando manter firme a própria convicção.

 

— Não cante vitória ainda, Misty! Vou derrotar você… custe o que custar!

 

— Cai na real, Ash. — a ruiva rebate, a voz firme, mas carregada daquela confiança quase despretensiosa que só ela sabia usar. — Não tem como o Pikachu vencer o Starmie na água.

 

A afirmação bate mais forte do que Ash gostaria de admitir. Ele olha para a piscina: mesmo com a água clara, só consegue ver a sombra amarela do parceiro tentando, com esforço, ganhar impulso até a superfície.

 

“Ela tá certa… Pikachu se vira bem na água, mas contra um Starmie… desse jeito…”

 

A ideia o frustra.

 

Misty percebe o instante de hesitação e sorri - não de deboche, mas daquele jeito competitivo e quase brincalhão que deixava claro que ela estava se divertindo com a disputa.

 

— De qualquer forma, parece que não vou precisar explicar nada pra você depois! — ela diz, a voz leve, porém afiada. — Não deixe o Pikachu subir, Starmie. Rapid Spin!

 

A estrela aquática mergulha alguns centímetros, e seu cristal brilha antes do giro calculado começar. O corpo em rodopio de Starmie cria uma corrente circular que se espalha pela água, como pequenas ondas puxando tudo ao redor.

 

Pikachu, que já quase alcançava a superfície, é surpreendido pela força do redemoinho. Sua natação se desfaz em um segundo, e o ratinho é empurrado de volta para baixo, girando involuntariamente dentro do fluxo criado por Starmie.

 

Ash dá um passo à frente, alarmado.

 

— Pikachu, cuidado!

 

Mas Starmie mantém o giro, e a água continua girando junto dele, firme, disciplinada - uma barreira invisível impedindo Pikachu de subir.

 

Misty assiste à cena com um brilho satisfeito nos olhos, apoiando as mãos na cintura, o corpo inclinado levemente para frente. Ela sabia exatamente o que estava fazendo.

 

E o terreno que ela montara deixava isso muito claro.

 

Starmie interrompe seu giro, e os redemoinhos deixados para trás ainda fervilham na superfície da piscina, puxando e empurrando Pikachu sem trégua, como se fosse diversos Whirpool’s improvisados. O pequeno rato elétrico era arrastado de um lado para o outro, sem conseguir firmeza para nadar; cada tentativa de estabilizar o corpo era engolida pela correnteza turbulenta. Ash observava tudo com o peito apertado - era uma tormenta da qual Pikachu não tinha como escapar com facilidade.

 

Com as irmãs da ruiva...

 

— Uau... A Misty pode realmente ganhar essa batalha. — Lily comenta, os olhos arregalados. Era estranho admitir, mas a habilidade da irmã mais nova estava muito além do que imaginara.

 

— Nesse ponto, é praticamente impossível a Misty perder. Aquele Pikachu não tem mais chance alguma. — Violet cruza os braços, convicta.

 

— Concordo. — diz Daisy. — O campo que ela preparou deixa qualquer desafiante travado. Ainda mais um novato.

 

Serena escuta tudo em silêncio, mordendo levemente o lábio. Aquilo lhe azedava o estômago - odiava ver alguém subestimando o Ash. E, mesmo que a situação estivesse desfavorável, ela não conseguia abandonar a certeza que pulsava dentro de si: Ash ainda podia virar aquilo. Ele sempre podia.

 

Brock percebe esse conflito de emoções da caramelada, mas decide ficar calado - se Ash quisesse enfrentar os mais fortes Treinadores, teria que passar desse desafio. Ele o derrotou, então tinha a obrigação de derrotar a Misty.

 

— Pikachu, mantenha a calma! Tente nadar contra a correnteza, vai! — Ash grita, a voz firme apesar da ansiedade evidente.

 

Mesmo com a audição abafada pela água e pelo rugido dos redemoinhos, Pikachu ainda o escutava. Seu pequeno corpo era empurrado e comprimido pela pressão que o puxava de todos os lados, mas ele não desistia. Apertando os olhos, começa a girar a cauda com velocidade crescente, tentando gerar impulso próprio para sair daquele turbilhão.

 

A água ao redor vibra, empurrando-o levemente - por um instante, parece funcionar.

 

Porém...

 

— Starmie, use o Rapid Spin sem parar, agora! — Misty ordena, um sorriso breve surgindo no canto dos lábios. Ela não permitiria nenhuma brecha para Pikachu escapar.

 

A estrela do mar mergulha num rasante veloz, girando de forma brutal. Pikachu quase não tem tempo de perceber o brilho roxo de seu cristal antes do impacto. O golpe o acerta em cheio, arremessando-o de volta para o centro do vórtice.

 

Ash se inclina à beira da piscina, o coração disparado.

 

— De novo não!

 

A correnteza o engole novamente.

 

— Sabe, Ash... Deixa eu te contar um segredo. — a voz de Misty atravessa a frustração dele como um estalo, chamando sua atenção de imediato. O garoto pisca, confuso, mas curioso; não era comum vê-la tão séria no meio de uma batalha. Pikachu, por sua vez, continuava lutando contra a correnteza dos redemoinhos — Eu nunca fui uma treinadora muito forte... e nem uma dançarina muito boa. Por isso, sempre fui menosprezada por certas pessoas. — seus olhos descem por um instante, suaves, mas firmes. — Isso me deu um baita complexo de inferioridade durante boa parte da minha infância.

 

— O quê...? — Ash não entendia onde a garota queria chegar com esse desabafo tão repentino. No entanto, era incapaz de desviar o olhar. Ver Misty falar assim, tão abertamente, despertava nele algo entre admiração e surpresa. Pensar que ela nem sempre foi forte, que ela começou de baixo, era algo incrível para ele.

 

Nas arquibancadas, as irmãs da ruiva desviam os olhos, cruzam os braços, mexem nos cabelos. O desconforto delas era evidente - talvez por culpa, vergonha, ou até arrependimento. Era difícil dizer. Nenhuma ousava comentar.

 

— Só que... — continua Misty, e agora há um brilho diferente em seus olhos — Como eu não conseguia aumentar a força dos meus Pokémon... tive que encontrar outra maneira de compensar isso. — Um sorriso confiante se forma em seus lábios, leve, mas carregado de orgulho. — E adivinha? Consegui superar as minhas irmãs. Consegui superar o Deryl. — o velho apenas sorri, silencioso, num gesto de reconhecimento. — E talvez... talvez eu tenha até superado a minha mãe.

 

Um murmúrio quase coletivo ecoa pelas arquibancadas. A declaração era ousada - surpreendente até para quem conhecia Misty.

 

Ash sente o peito se aquecer. Não entendia tudo, nem ao menos conhecia a mãe dela, mas ficava feliz pela garota… e, ao mesmo tempo, não sabia por que ela estava compartilhando tudo isso justamente agora, no meio da batalha.

 

— Sabe por que eu tô te contando isso? — pergunta ela, mesmo já sabendo a resposta. — Pra te mostrar até onde o esforço pode te levar! — declara sem hesitar, pegando Ash completamente de surpresa. — Eu percebi como você ficou pra baixo depois daquele incidente no Monte Lua. Posso não parecer, mas sou bem perspicaz. — ela dá uma batidinha na própria cabeça, num gesto leve e brincalhão.

 

Então seu sorriso muda para um mais firme, desafiador.

 

— E é por isso que eu não posso pegar leve com você, Ash! — afirma, cheia de convicção. — Vou usar todas as artimanhas que eu tiver nas minhas mangas pra te esmagar completamente! Se você tiver a vontade necessária pra me superar, eu quero ver! — ela aponta para Ash diretamente, como se o puxasse de volta à batalha com aquela energia. — Então me mostre que você é mais do que isso que tá mostrando, Ash Ketchum!!!

 

O silêncio que se segue é quase palpável. Ash permanece imóvel, absorvendo cada palavra. Nas arquibancadas, todos observam com atenção, especialmente Serena - eram palavras intensas, até duras demais. Um Treinador qualquer talvez desmoronasse sob esse peso.

 

Mas Ash… apenas sorri. Um sorriso genuíno, repleto de gratidão.

 

Porque tudo que Misty acabara de oferecer não era só uma provocação: era um ensinamento. Um daqueles que não se aprendia na Academia. Uma lição sobre não subestimar o esforço. Também era sobre orgulho, sobre superar expectativas - inclusive as próprias.

 

Eram lições que ele adoraria esfrega-las na cara de certas pessoas.

 

“Obrigado, Misty!” — pensa Ash, ajeitando o boné com um gesto firme, quase ritualístico. — “Graças a você, eu sei exatamente o que fazer. Tenho que vencer qualquer batalha se quiser me tornar um Mestre Pokémon. Só assim vou realmente sentir que dei meu melhor.”

 

Ele então aperta as luvas, sentindo a textura familiar do couro nos dedos - um gesto simples, mas carregado de decisão. Era hora do gran finale. E Misty percebe na hora, seu sorriso se abrindo ainda mais, como se tivesse esperado exatamente por esse momento.

 

— Pikachu, vamos mostrar pra Misty o que a gente sabe fazer!

 

Assim que escuta a ordem, o ratinho reúne cada gota de força que ainda restava. Ele gira a cauda com violência, usando-a como hélice, e finalmente rompe o vórtice, escapando da sucção que o prendia. Entretanto, seu fôlego se esgotava. Mesmo sendo capaz de aguentar bem debaixo d’água, seu limite estava a um fio.

 

Precisava alcançar a superfície - e rápido. Entretanto, Misty se antecipa.

 

— Continue com o Rapid Spin, Starmie!

 

Mais uma vez, Starmie avança com seu giro violento, acertando Pikachu de frente. A correnteza criada pelos redemoinhos ainda o puxava em todas as direções, tornando seus movimentos lentos e pesados.

 

A estrela então gira numa meia-volta precisa e o atinge outra vez. E outra. E mais outra. O ciclo se repete, implacável, com Pikachu completamente à mercê dos impactos sucessivos. Cada golpe o lança de volta para o vórtice, onde a água rodopiante drenava seu fôlego e equilíbrio. Ele estava afundando rápido - no corpo e na consciência.

 

Ash percebe isso imediatamente.

 

“Droga… Pikachu nem consegue reagir. Precisamos de um timing perfeito… só assim viramos isso.” — pensa, sentindo o suor escorrer pelo queixo — “Aguenta firme, Pikachu.”

 

O pequeno rato suportava o que podia. A pressão dos redemoinhos comprimindo seu corpo dificultava cada movimento, tornando-o alvo fácil para o Rapid Spin constante. Seu limite estava perigosamente próximo… mas desistir simplesmente não era uma opção.

 

Ele precisava provar para Ash - e para si mesmo - que ainda podia vencer. Que não cairia por mero cansaço, não depois de ter lutado tanto.

 

E enquanto Pikachu resistia com cada fibra do corpo, algo dentro de Ash dizia que era agora. Tinha chegado a hora de tentar.

 

— Pikachu, agarre-se no Starmie!

 

Mesmo atordoado, Pikachu estreita os olhos. No exato instante em que Starmie o acerta mais uma vez, ele estende as patinhas e se agarra com firmeza a uma das extremidades da estrela. O impacto o arrasta junto, mas ele não solta.

 

— Mas o quê…?! — Misty arregala os olhos. — Starmie, tira ele daí!

 

Starmie rompe a superfície levando Pikachu grudado em si – que se sentia aliviado por finalmente recuperar o fôlego – com a Estrela-do-Mar movendo-se de um lado para o outro como um animal selvagem tentando se livrar de um parasita. A estrela sacudia o corpo freneticamente, as pontas cintilando em reflexos rápidos.

 

Mas Pikachu não soltava. Nem por um segundo.

 

— Parece que tá tudo num impasse agora. — comenta Brock, sem tirar os olhos dos dois Pokémon.

 

“Ganhe, Ash. Por favor.” — Serena torcia em silêncio, sentindo o clímax se aproximar. Todos percebiam que era o momento decisivo.

 

— Pikachu, dê um Thunder Shock nessa Starmie. — ordena Ash, com a adrenalina tinindo.

 

— Piiikaaaa… — ainda agarrado ao corpo escorregadio do tipo Água, Pikachu já reunia energia.

 

— Mas nem pensar! — mas Misty é mais rápida — Rapid Spin, agora!

 

Starmie gira de imediato, o corpo brilhando enquanto aumenta a rotação. Em poucos segundos, Pikachu perde firmeza, é sacudido para longe e arremessado em direção à água.

 

— Starmie, Hydro Pump!

 

A estrela dispara sua rajada com precisão, a pressão cortando o ar.

 

— Intercepte com o Thunder Shock! / CHUUUUU!!! — em queda livre, Pikachu solta o ataque elétrico. Os dois golpes se encontram no meio do percurso e estouram numa névoa quente de vapor. Os ataques se cancelam, mas fica claro que o ataque de Starmie detinha mais poder – mas fora suavizado apenas pela desvantagem de tipo.

 

O vapor toma o campo, formando uma cortina espessa, obstruindo a visão dos combatentes. Starmie se mantém firme sobre a água, mas Misty percebe sua respiração acelerada após se mexer tanto, e tenta aproveitar esse breve momento.

 

— Starmie, use Recover

 

— Agora, Pikachu! — Ash a corta com firmeza.

 

Para a surpresa de todos, o roedor amarelo, tendo usado a borda da piscina para se impulsionar, surge acima da névoa, tendo a atravessado graças aos seus instintos aguçados. A visão dele furando o vapor causa um breve murmúrio na plateia.

 

Ash reconhece a abertura de imediato.

 

Thunder Shock, vai! / CHUUUUU!!!

 

Starmie, ainda preso no início do movimento de cura, não consegue reagir a tempo. A descarga o atinge por completo, riscando o Ginásio com lampejos intensos.

 

— Starmie… — murmura Misty, surpresa, já sabendo o que viria.

 

Quando as faíscas cessam, Starmie permanece imóvel, chamuscado. Por alguns instantes, o silêncio pesa - até que o tipo Água tomba para trás, completamente desacordado, boiando com seu cristal de centro piscando continuamente.

 

Deryl respira fundo, confirmando o inevitável.

 

— Starmie está fora de combate! Pikachu vence! E a vitória vai para Ash Ketchum, da cidade de Pallet! — anuncia, erguendo o braço em direção ao vencedor.

 

— VENCEMOS!!! / Pikapi!!! — Ash ergue o punho, tomado por pura euforia. Pikachu salta para fora da água e cai direto em seus braços, sendo acolhido num abraço apertado. — Conseguimos, Pikachu! Nossa segunda Insígnia! Eu tô tão orgulhoso de você!

 

Os dois celebram com toda a energia acumulada, e na plateia o alívio explode em alegria.

 

— O Ash venceu! — Serena, com os olhos marejados depois de tanta tensão, se permite vibrar sem medo.

 

— Que batalha pegada, hein! — Brock limpa o suor da testa, mas não segura o sorriso. — “No fim, Ash, você triunfou. Parabéns.”

 

— A Misty perdeu… — murmura Daisy, quase incrédula. Em outros tempos, zombaria da irmã mais nova sem pensar duas vezes, mas depois do que ela mostrou… pela primeira vez, não sentia que tinha direito de fazer isso.

 

Violet partilhava do mesmo silêncio indeciso, sem palavras. Lily, porém, parecia enxergar com mais clareza.

 

— Essa batalha foi meio que… incrível. Não foi? — admite a rosada, com uma sinceridade inesperadamente suave. Isso faz as duas irmãs piscarem, finalmente aceitando a realidade: de fato, a luta tinha sido incrível. Não havia como negar.

 

— Starmie, retorne. — Misty chama sua Pokémon de volta, usando uma voz calma, porém orgulhosa. — Você foi demais. Trouxe honra ao Ginásio de Cerulean. — ela então olha para as outras Poké Balls que usara. — “Todos vocês trouxeram.”

 

Logo, uma nova plataforma metálica desliza e se encaixa, formando uma ponte até o centro da piscina, onde Ash e Misty poderiam se encontrar cara a cara.

 

Quando as comemorações diminuem, Ash se aproxima junto da ruiva, e a mesma logo estende a mão com um sorriso sincero.

 

— Obrigada por essa batalha, Ash. Você realmente provou que consegue superar adversidades. Essa é a melhor qualidade que um Treinador pode ter.

 

— Eu que agradeço, Misty! — Ash responde de imediato, apertando a mão da ruiva com um gesto amigável — Aprendi muita coisa batalhando contra você. Sinto até que fiquei mais forte. — Pikachu concorda com um aceno cansado, mas satisfeito. Depois daquela provação, qualquer oponente parecia possível.

 

— Isso é bom de ouvir! — Misty ri levemente. Mas Ash ainda tinha uma questão engasgada desde a metade do confronto.

 

— Mas agora que eu ganhei… pode me explicar o que aconteceu naquela parte do Tentacool?

 

Com um leve sorriso, Misty decidiu encerrar o mistério. Afinal, devia isso a ele.

 

— Sabe, Ash... cada Líder de Ginásio tem sua própria forma de testar os desafiantes. A minha é através do inesperado. — começou, com a voz calma. — Já planejava retomar o Ginásio quando voltasse da minha viagem, então comprei o TM do Giga Drain e mandei colocarem à venda aqui na cidade.

 

Ash tentava entender, mas decidiu deixa-la continuar. Talvez pegaria tudo com o passar da explicação.

 

— Não achou estranho ter um TM do tipo Grama sendo vendido em uma cidade aquática? — continuou Misty, arqueando uma sobrancelha com um sorriso irônico. — Foi tudo proposital. Quis dar aos desafiantes uma falsa sensação de segurança... pra que o choque fosse ainda maior quando a verdade viesse à tona. — em seguida, ela mostra a Poké Ball de Tentacool — E é aí que meu Tentacool entrava. Ele tinha a habilidade perfeita para lidar com seu Giga Drain.

 

As irmãs da garota, enfim, entenderam o porquê delas não terem conhecimento disso: não era algo que Misty se daria ao trabalho de contar a elas.

 

— O que ela quer dizer, Brock? — pergunta Serena, um tanto confusa com a explicação.

 

— Liquid Ooze. — responde ele, direto, com uma expressão analítica, mas sorrindo levemente — Era óbvio demais.

 

— Exatamente! — confirma Misty, com um leve sorriso brincalhão. — Nunca confie demais em um ataque que parece seguro, Ash. Fica aí minha última lição pra você.

 

Liquid Ooze? / Pika? — repetem Ash e Pikachu, intrigados. O garoto então puxa sua Pokédex, ansioso por entender o que aquilo significava.

 

Liquid Ooze: Habilidade de alguns tipos Venenosos, inclusive do Tentacool. Quando um Pokémon com essa habilidade é atingido por movimentos que drenam energia, como o Giga Drain, o atacante, em vez de recuperar energia, sofre dano ao absorver o fluido tóxico do alvo. — Dexter informava, surpreendendo todo mundo, menos Brock, que já conhecia, por fora, essa habilidade.

 

— Bom, não é surpreendente vocês não terem conhecimento dessa habilidade. — Brock diz — Afinal, apenas duas espécies de Pokémon possuem ela. Tem certos detalhes que a Academia evita expor, e querem que o Treinador experiencie por conta própria.

 

— É sério?! — Serena arregalava os olhos. Eram informações demais para absorver desse jeito.

 

E bem... Levando toda essa explicação da Misty em consideração, então isso só quer dizer que aquele Shellder... — Brock começou a juntar os pontos, franzindo o cenho em uma expressão pensativa.

 

— Era apenas uma isca para ser alvo do Giga Drain. Tudo para aumentar a confiança do meu adversário e fazê-lo acreditar que seu “trunfo” daria certo. — confirmou Misty, com um sorriso satisfeito, claramente se divertindo com as expressões atônitas à sua volta.

 

— Então... quer dizer que o fato de ela usar um Pokémon novato também fazia parte da estratégia o tempo todo?! — Lily estava boquiaberta diante da sagacidade da irmã mais nova, sentimento que parecia compartilhado por Violet e até por Daisy. Jamais imaginariam algo assim vindo dela. — Ela nos enganou!

 

— Nossa, Misty... nem sei como reagir. Você realmente me pegou. / Pika... — Ash sorri sem graça, a mão indo automaticamente à nuca.

 

— Era essa a intenção! — responde a ruiva, mantendo o mesmo ar divertido de antes.

 

— E foi exatamente por isso que eu nomeei você como a Líder de Ginásio de Cerulean!

 

Uma nova voz ecoa pelo Ginásio, cortando a conversa no centro da arena. Misty e suas irmãs se viram quase ao mesmo tempo, os olhos arregalando em surpresa - a figura que avançava lentamente da entrada era inconfundível. Os cabelos, o olhar, até a postura… tudo nela carregava uma semelhança clara com Misty, porém mais madura, mais firme, mais imponente, mas carregando um ar divertido que parecia bem mais característico dela.

 

— Mãe?! — a ruiva mais nova exclama, atônita. Jamais imaginaria ver sua matriarca ali, e muito menos naquele momento. — O que você tá fazendo aqui?!

 

A mulher - dona de longos e belos cabelos alaranjados que caíam como ondas - apenas sorri de forma leve, quase travessa.

 

— Eu estive ali atrás, escondida, assistindo à batalha desde o início. — ela mostra a língua num gesto descontraído que quebrava qualquer formalidade — E tenho que dizer... que show vocês deram. — comenta, alternando o olhar entre Ash e Misty com uma apreciação genuína.

 

— Eh… obrigado, senhorita. — Ash se curva levemente, respeitoso, embora ainda um pouco atônito. A semelhança entre mãe e filha era tão gritante que quase o desconcertava - era como olhar para uma versão mais madura da própria Misty. Serena, ainda nas arquibancadas, parecia igualmente surpresa; para ela, Misty e a mãe eram praticamente cópias uma da outra, enquanto as irmãs da ruiva se diferenciavam bem mais.

 

— Seja bem-vinda de volta, madame Waterflower. — Deryl se aproxima com a elegância impecável que sempre carregava, fazendo uma reverência digna de um mordomo aristocrata.

 

A matriarca apenas inclina a cabeça, retribuindo com um aceno simples, mas cheio de autoridade natural.

 

— Mas é bom ver que vocês, enfim, honraram nosso Ginásio como ele merecia. Diferente de certas pessoas que… deram um certo trabalho. — nessa última frase, o olhar da mulher desliza sutilmente para as arquibancadas, onde as suas outras três filhas tentam, de forma falha, se encolher para tentarem não serem percebidas. O esforço era tão evidente quanto inútil.

 

— Mas enfim… tô muito orgulhosa de você, Misty. — ela se volta para a ruiva mais nova, e seu tom muda, suave e caloroso — Posso não ter sido a melhor mãe do mundo. Mas nunca deixei de te amar. Tenha certeza disso. Ver que você se tornou tão forte… mesmo sem pedir ajuda… me deixa tão feliz.

 

— Mãe… — Misty olhava para o fundo dos olhos da mulher. O ressentimento ainda estava ali, guardado em algum canto, mas não era forte o suficiente para abafar o que sentia naquele momento. As palavras da mãe eram sinceras - isso ela conseguia reconhecer de imediato. E, mesmo sem querer, sentia um nó quente surgir na garganta.

 

Ash, Brock e até Deryl observavam a cena em silêncio com um sorriso discreto, de forma emotiva – diferente do mordomo, os três jovens desconheciam a história de Misty, mas podiam, de alguma forma, entender que aquele momento parecia importante para elas. Para mãe e filha, era muito mais que um elogio: era reconciliação, mesmo que silenciosa.

 

— Bem… agora acho que é hora de falarmos de algo sério, Misty. — o tom firme pega a ruiva completamente desprevenida; não era comum a mãe ficar séria assim tão rápido. — É sobre seu sonho.

 

Misty sente o estômago apertar. Seu sonho? O que exatamente sua mãe queria discutir ali, na frente de todo mundo?

 

— Mas podemos fazer isso depois de um bom lanche! — e, quase num passe de mágica, o ar sério se desfaz, substituído pelo habitual brilho divertido da matriarca. A mudança é tão repentina que todos ao redor quase caem para trás. Era difícil entender o que se passava na cabeça daquela mulher.

 

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Avenida principal de Cerulean – 14:45 da tarde

 

Pouco tempo depois, já no centro movimentado da cidade, a matriarca, que se apresentara como Nerida Waterflower, havia feito um pedido generoso em um dos maiores restaurantes de Cerulean, decidindo acompanhar o grupo nas refeições - e, apesar das tentativas de Ash, Serena, Brock e Misty de recusarem, a mulher insistiu em pagar tudo. Para ela, era o mínimo depois de ter assistido uma batalha tão emocionante. – Pikachu se acaba nas batatas-fritas, com bastante ketchup. As irmãs de Misty não puderam comparecer, afinal, tinham bastante compromissos marcados para depois da batalha de Ginásio. Enquanto Deryl voltou a seus afazeres de mordomo na mansão dos Waterflower, além de cuidar no Poké Mart de vez em quando.

 

O grupo conversava sobre assuntos diversos, seja sobre eventos do passado, ou até o motivo das demais filhas de Nerida serem tão diferentes dela e de umas as outras. O motivo era simplesmente porque elas pintavam o cabelo. Nerida não se aprofundou mais nesse assunto, mas era algo que deixara Ash, Serena e Brock bastante curiosos.

 

Sentados à mesa, cercados pelo aroma de pratos quentes e pelo burburinho animado do lugar, o grupo começava a relaxar. Ainda assim, na mente de Misty, uma pergunta ecoava sem parar: o que, exatamente sua mãe queria falar?

 

— E então? O que acharam da comida? Esse é o maior restaurante de Cerulean. — Nerida apoia o punho no queixo, relaxada, com um sorriso satisfeito.

 

— Estava uma delícia, senhorita Nerida. — Serena responde com educação, enquanto Ash e Brock concordam num aceno sincero.

 

— Por favor, querida… só Nerida. — ela abana a mão, como quem afasta poeira — Formalidade me dá alergia.

 

Serena sorri um pouco sem graça. A mãe de Misty, porém, a observa por um instante a mais do que o necessário - havia algo ali, um reconhecimento silencioso.


“Então essa é a filha da Grace…” — pensa, intrigada. Não tinham nada de parecido uma com a outra. Curioso.

 

— Mãe, vamos ao que interessa logo. — Misty cruza os braços, impaciente. Era típico dela.

 

Nerida solta um suspiro teatral.

 

— Você sempre foi assim, Misty… mas vou direto ao ponto. — sua expressão muda devagar, como se uma sombra mais séria passasse por trás de seus olhos. — Eu estive pensando. E acho que… não posso te prender aos afazeres do Ginásio. Pelo menos não por agora.

 

A mesa inteira se silencia.

 

— O que quer dizer com isso? — Misty pergunta, surpresa real escapando em sua voz.

 

Nerida sorri - um sorriso sereno, quase maternal demais para a mulher tão caótica que eles tinham conhecido até então.

 

— Quero dizer que é hora de você seguir seus sonhos, filha. — diz com simplicidade, como se estivesse comentando sobre o clima. — Cerulean é pequena demais pra abrigar um talento tão grande quanto o seu.

 

Misty pisca, surpresa. Sua mãe estava realmente dizendo isso? Mas em seguida, um sorriso de provocação surge em seus lábios.

 

— Tá tentando me expulsar da cidade, mãe? — brinca, arqueando a sobrancelha.

 

— Você entende rápido, querida! — Nerida devolve a provocação com uma piscadela atrevida.

 

Ash e os outros trocam olhares quase divertidos. Era estranho… e bonito, de certa forma, ver mãe e filha conversando daquele jeito. Mesmo confusos, eles ainda sabiam até onde aquilo iria.

 

Nerida então se recosta na cadeira, os dedos entrelaçados.

 

— Você sempre quis ser uma mestra dos Pokémon aquáticos. Sempre. Mesmo quando algumas pessoas não acreditassem muito nisso. — pensamentos de suas filhas mais velhas lhe vem a mente — Então eu te pergunto: o que acha de viajar? Uma viagem mais longa dessa vez. Conhecer lugares, pessoas, Pokémon… expandir seus horizontes. Acho que seria uma ótima forma de você se aperfeiçoar.

 

As palavras ficam suspensas no ar por um momento, como uma gota prestes a cair. Misty sente algo se mexer dentro dela. Um velho anseio. Um chamado familiar.

 

— Viajar… — ela repete, quase num sussurro.

 

Ash observa a ruiva em silêncio, percebendo a forma como suas mãos, antes tensas, agora repousavam com mais suavidade sobre a mesa. Serena também nota. Brock, do outro lado, apenas sorri - ele sabia muito bem o quanto Misty havia guardado esse sonho pelo pouco que interagira com ela.

 

Nerida inclina a cabeça, com um carinho discreto.

 

— Você nasceu pra ver o mundo, Misty. Não pra ficar presa a paredes que não comportam quem você é.

 

Misty respira fundo, como se algo dentro dela finalmente ganhasse espaço. E a conversa - o momento - fica ali, à espera de sua resposta.

 

— Bem... eu acho que eu... — Misty começava, mas não teve tempo de concluir.

 

— Independente da sua resposta, acho que você criou um laço com esses jovens aqui. — Nerida interrompe sem cerimônia, deslizando até Ash e o puxando para um abraço lateral, como se fosse algo natural — Então vocês podem viajar juntos! Que tal?

 

— Como é...?! — Ash engasga na hora, e Misty praticamente repete o mesmo choque.

 

— Mãe, você não pode simplesmente dizer para eu viajar com eles assim. Imagine a impressão que isso vai causar! — Misty protesta, cruzando os braços, mas havia mais preocupação do que raiva na voz.

 

— Na verdade, a gente não se importaria nem um pouco, Misty. — Ash diz, sincero, fazendo a ruiva piscar surpresa.

 

— O Ash tem razão! — Serena completa, com um sorriso caloroso — Além do mais, eu adoraria ter outra menina no grupo pra conversar.

 

— E, como ex-Líder de Ginásio, afirmo que seria uma ótima troca de experiência pra todos nós. — Brock entra na conversa com naturalidade

 

— Vocês... têm certeza disso? — Misty murmura, tentando manter o tom neutro, mas o brilho emocionado era impossível de esconder — Eu posso mesmo viajar com vocês?

 

O grupo apenas acena, sorrindo como se a resposta sempre tivesse sido óbvia.

 

— Então está decidido! — Nerida bate palmas, radiante — Vocês podem partir amanhã de manhã. Ah, e vou reservar quartos exclusivos para vocês lá em casa. Mas aproveitem o resto da tarde como quiserem.

 

Misty apoia uma mão na cintura, erguendo a sobrancelha.

 

— Nossa, mãe. Até parece que você tá querendo que eu vá embora logo.

 

— Não me leve a mal, filha! — Nerida ri, sincera — Eu só tô ansiosa pra ver a mulher incrível que você vai se tornar.

 

Ash, Serena, Brock e Misty riram junto. A honestidade calorosa da matriarca tinha um jeito único de deixar tudo mais leve.

 

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Já eram 21:30, e a tarde havia passado como um raio.

 

Misty estava em seu quarto, concentrada enquanto organizava sua bagagem para a grande viagem que faria na manhã seguinte.

 

— Deixa eu ver… o que seria melhor levar? Minha vara de pesca não pode faltar… — murmura, movendo objetos e roupas de um lado para o outro. Nunca havia se preparado para uma jornada tão longa, então cada escolha parecia mais complicada do que deveria.

O som suave da porta se abrindo lhe chama atenção. Ao virar-se, encontra sua mãe entrando como se fosse a coisa mais natural do mundo.

 

— E então, filha? Como tá indo a bagagem?

 

— Primeiramente, você precisa aprender a bater. E segundamente, sair numa jornada é mais difícil do que eu pensei. — Misty comenta, com uma expressão pensativa que contrastava com sua reclamação.

 

— Viajar é difícil mesmo… mas a experiência começa exatamente aí: na dificuldade! — Nerida responde, aproximando-se e ignorando totalmente a primeira parte da fala da filha.

 

— É… acho que tem razão. — Misty concorda, até notar um detalhe que a faz estreitar os olhos — Por que você tá carregando essa bolsa?

 

— Ah, isso? — Nerida brinca, balançando o objeto de maneira teatral. — Acontece que tenho uma surpresinha pra você aqui dentro.

 

Misty inclina a cabeça, desconfiada e curiosa. Antes que faça qualquer pergunta, a mãe abre a bolsa e revela seu conteúdo - e a expressão da garota muda na hora.

 

— Mas... isso é um… — ela leva a mão à boca, completamente surpresa. Onde sua mãe havia conseguido uma coisa dessas?

 

— Acredito que isso pode te ajudar muito na sua jornada futuramente. — Nerida sorri com um carinho que Misty raramente via — Quero que tenha todas as chances possíveis de crescer, do seu jeitinho.

 

Era um presente grande, importante… e Misty sentia que aquilo marcava, de verdade, o início de uma aventura inesquecível.


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